INTRODUÇÃO
Escrito em plena campanha abolicionista (1875), o livro conta as desventuras de Isaura, escrava branca e educada, de caráter nobre, vítima de um senhor devasso e cruel.
O romance A Escrava Isaura foi um grande sucesso editorial e permitiu que Bernardo Guimarães se tornasse um dos mais populares romancistas de sua época no Brasil. O autor pretende, nesta obra, fazer um libelo anti-escravagista e libertário e, talvez, por isso, o romance exceda em idealização romântica, a fim de conquistar a imaginação popular perante as situações intoleráveis do cativeiro. O estudioso Manuel Cavalcanti Proença observa que:
“Numa literatura não muito abundante em manifestação abolicionistas, é obra de muita importância, pelo modo sentimental como focalizou o problema, atingindo principalmente o público feminino, que encontrava na literatura de ficção derivativo e caminho de fuga, numa sociedade em que a mulher só saía à rua acompanhada e em dias pré-estabelecidos; o mais do tempo ficava retida em casa, sem trabalho obrigatório, bordando, cosendo e ouvindo e falando mexericos, isto é, enredos e intrigas, como se dizia no tempo e ainda se diz neste romance.”
O NASCIMENTO DO ROMANCE
A publicação de romances em folhetins - os capítulos aparecendo a cada dia nos jornais - já era comum no Brasil desde a década de 1830. A maior parte destes folhetins era composta por traduções de romances de origem inglesa, como as histórias medievais de Walter Scott, ou francesa, como as aventuras dos Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas. Emocionados, os brasileiros acompanhavam as distantes aventuras de um Ivanhoé ou de um D’Artagnan, transportando-se, em espírito, para os campos e reinos da Europa.
Embora fizessem sucesso junto ao público, os primeiros romances brasileiros, publicados em folhetim, não deixavam de ser considerados, pelos literatos “sérios”, como “uma leitura agradável, diríamos quase um alimento de fácil digestão, proporcionado a estômagos fracos.” O romance, esse gênero literário novo e “fácil”, que foi introduzido na literatura brasileira por autores como Joaquim Manuel de Macedo e Teixeira e Sousa, ganharia status de literatura "séria" com a obra de José de Alencar.
Os primeiros romances brasileiros
Na década de 1840 começam a aparecer alguns folhetins de autores nacionais, ambientados no Brasil. Teixeira e Sousa (1812-1861), considerado por muitos o nosso primeiro romancista, estréia em 1843 com O Filho do Pescador. No ano seguinte, o jovem estudante de medicina, Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), surge com A Moreninha, o primeiro romance nacional “apreciável pela coerência e pela execução”. Em meio à corrente açucarada dos nossos primeiros folhetinistas surge, já em 1852/53, a obra excêntrica de um jornalista carioca de vinte e um anos chamado Manuel Antônio de Almeida (1831-1861). As suas Memórias de um Sargento de Milícias retratam de forma irônica a vida do Rio de Janeiro “no tempo do rei” Dom João VI e apresentam um contraponto cômico à seriedade por vezes excessiva e à inverossimilhança dos romances do Dr. Macedinho.
A descrição do cenário nacional
O público interessava-se, portanto, cada vez mais por um romance de aventuras românticas que apresentasse o cenário brasileiro. O grande sucesso de público de O Guarani (1857), de José de Alencar, em que as aventuras de Peri e sua amada Cecília se desenrolam em meio à exuberante natureza fluminense, estimula os escritores a se voltarem para a apresentação da ambientação tipicamente nacional em suas obras.
Na década de 70 essa tendência nacionalista haveria de se consolidar, com o surgimento das obras de Franklin Távora (1842-1888), autor de O Cabeleira (1876) e o Visconde de Taunay (1843-1899), autor de Inocência (1872). É nesse cenário literário que aparece, em 1875, um dos maiores sucessos de público do período: A Escrava Isaura, que explora uma das questões mais polêmicas da sociedade brasileira da época, a escravidão.
O ENREDO
A história se passa nos “primeiros anos do reinado de D. Pedro II”, inicialmente em uma fazenda em Campos dos Goitacazes (RJ). Isaura, escrava branca e bem-educada, é assediada pelo seu senhor, Leôncio, recém-casado com Malvina. Isaura se recusa a ceder aos apelos de Leôncio, como já fizera, no passado, sua mãe, que, por ter repelido o pai de Leôncio, fora submetida a um tratamento tão cruel que, em pouco tempo, morrera.
Para forçá-la a ceder, Leôncio manda Isaura para a senzala, trabalhar com as outras escravas. Sempre resignada, suporta passivamente o seu destino, porém, não cede a Leôncio, afirmando que ele, como proprietário, era senhor de seu corpo, mas não de seu coração: “ - Não, por certo, meu senhor; o coração é livre; ninguém pode escravizá-lo, nem o próprio dono.” Leôncio, enfurecido, ameaça colocá-la no tronco.
No entanto, seu pai, ex-feitor da fazendo, consegue tirá-la de lá e foge com ela para Recife (PE). Em Recife, Isaura usa o nome de Elvira e vive reclusa numa pequena casa com seu pai. Então, conhece Álvaro, por quem se apaixona e é correspondida. Vai a um baile com ele, onde é desmascarada e reconhecida. Álvaro, ainda que surpreso, não se importa com o fato de ela ser uma escrava e resolve impedir que Leôncio a leve de volta, inclusive tentando comprá-la. Mas não consegue convencer o vilão, e este leva Isaura de volta ao cativeiro na fazenda.
Leôncio está praticamente falido e, com o objetivo de conseguir um empréstimo do pai de Malvina, consegue se reconciliar com a mulher, afirmando que Isaura é quem o assediava. Então, para punir Isaura, Leôncio manda que ela se case com Belchior, jardineiro da fazenda. Entretanto, Álvaro descobre a falência de Leôncio e compra a dívida dos seus credores, tornando-se proprietário de todos os seus bens, inclusive de seus escravos. No dia do casamento de Isaura, antes que se celebrasse a cerimônia, Álvaro aparece e reclama seus direitos a Leôncio. Vendo-se derrotado e na miséria, Leôncio suicida-se. Tudo termina, portanto, com a punição dos culpados e o triunfo dos justos.
Como bem o sintetizou Carlos Alberto Vecchi:
“A estrutura narrativa de A Escrava Isaura segue o modelo folhetinesco das histórias românticas: para atingir seu ideal e obter o reconhecimento de todos, o herói tem que realizar uma jornada perigosa, onde a própria vida é colocada em risco. O Amor, epicentro onde se debatem o Bem e o Mal, torna-se a força motriz que conduz ao restabelecimento do equilíbrio e da felicidade a todos que, em momento algum, se deixaram intimidar pelos desmandos de Leôncio. O Mal extirpado (o suicídio de Leôncio) cede lugar ao Bem. E aqueles que nortearam suas ações pelas virtudes maiores é que estão aptos a receber o prêmio daí decorrente.”
OS PERSONAGENS
A obra apresenta a tríade comum aos romances populares românticos: vilão, heroína e herói. E, graças à ausência de profundidade com que são construídos, os personagens do romance são planos, estáticos e superficiais.
Isaura, a heroína escrava, é branca, pura, virginal, possui um caráter nobre e demonstra “conhecer o seu lugar”: do princípio ao fim, suporta conformada a perseguição de Leôncio, as propostas de Henrique, as desconfianças de Malvina, sem jamais se revoltar. Permanece emocionalmente escrava, mesmo tendo sido educada como uma dama da sociedade. Tem escrúpulos de passar por branca livre, acha-se indigna do amor de Álvaro e termina como a própria imagem da “virtude recompensada”.
Vejamos como Guimarães descreve sua heroína:
“A tez é como o marfim do teclado, alva que não deslumbra, embaçada por uma nuança delicada, que não sabereis dizer se é leve palidez ou cor-de-rosa desmaiada. (…) Na fronte calma e lisa como o mármore polido, a luz do ocaso esbatia um róseo e suave reflexo; di-la-íeis misteriosa lâmpada de alabastro guardando no seio diáfano o fogo celeste da inspiração.”
Leôncio é o vilão leviano, devasso e insensível que, de “criança incorrigível e insubordinada” e adolescente que sangra a carteira do pai com suas aventuras, acaba por tornar-se um homem cruel e inescrupuloso, casando-se com Malvina, linda, ingênua e rica, por ser “um meio mais suave e natural de adquirir fortuna”. Persegue Isaura e se recusa a cumprir a vontade de sua mãe, já falecida, que queria dar a ela a liberdade e alguma renda para viver com dignidade.
Álvaro é um rico herdeiro, cavalheiro nobre e de caráter impecável, que “tinha ódio a todos os privilégios e distinções sociais, e é escusado dizer que era liberal, republicano e quase socialista”; um jovem de idéias igualitárias, idealista e corajoso para lutar contra os valores da sociedade a que pertence. Sua conduta moral é assim descrita pelo autor:
“Original e excêntrico como um rico lorde inglês, professava em seus costumes a pureza e severidade de um quacker. Todavia, como homem de imaginação viva e coração impressionaável, não deixava de amar os prazeres, o luxo, a elegância, e sobretudo as mulheres, mas com certo platonismo delicado, certa pureza ideal, próprios das almas elevadas e dos corações bem formados.”
Apaixonado por Isaura, o grande obstáculo que Álvaro precisa vencer é o fato de ser Isaura propriedade legítima de Leôncio. Para isso, vai à corte, descobre a falência de Leôncio, adquire seus bens e desmascara o vilão. Liberta Isaura e casa-se com ela, desafiando, assim, os preconceitos da sociedade escravocrata.
Nos demais personagens o processo de construção é o mesmo. Miguel, pai de Isaura, foge do conceito tradicional do mau feitor. Quando feitor da fazenda de Leôncio, tratara bem aos escravos e amparara Juliana, mãe de Isaura, nas suas desditas com o pai de Leôncio. Pai extremoso, deseja libertar a filha do jugo da escravidão e não mede esforços para isso.
Martinho é o protótipo do ganancioso: cabeça grande, cara larga, feições grosseiras e “no fundo de seus olhos pardos e pequeninos,… reluz constantemente um raio de velhacaria”. Por querer ganhar muito dinheiro entregando Isaura ao seu senhor, acaba por não ganhar nada. Já Belchior é o símbolo da estupidez submissa e também sua descrição física se presta a demonstrar sua conduta: feio, cabeludo, atarracado e corcunda. O crítico Manuel Cavalcanti Proença aponta “o parentesco entre o disforme e grotesco (de gruta) Belchior, e o Quasímodo de O Corcunda de Notre Dame, de Víctor Hugo, romance de extraordinária voga, ainda não de todo perdida, no Brasil.”
O dr. Geraldo é um advogado conceituado, que serve como fiel da balança para Álvaro, já que procura equilibrar os arroubos do amigo, mostrando-lhe a realidade dos fatos. Quando Álvaro, revoltado com a condição de Isaura e indignado com os horrores da escravidão, dispõe-se a unir-se a ela, mesmo sabendo que escandalizaria a sociedade, Geraldo retruca lucidamente que a fortuna de Álvaro lhe dá independência para “satisfazer os teus sonhos filantrópicos e os caprichos de
tua imaginação romanesca”. O que não é, na verdade, característica restrita apenas à sociedade escravocrata do século XIX.
Concessão ao preconceito?
Este romance já foi considerado, com bastante exagero, uma espécie de A Cabana do Pai Tomás (1851) nacional. Porém, Bernardo Guimarães, ao contrário da romancista americana Harriet Beecher Stowe, detém-se muito pouco na descrição dos sofrimentos provocados pelo regime escravocrata. Ele coloca, na boca de alguns personagens, como Álvaro e seus amigos, estudantes no Recife, algumas frases abolicionistas, mas parece tomar bastante cuidado em não provocar a fúria dos seus leitores conservadores. Está mais preocupado em contar as perseguições do senhor cruel à escrava virtuosa e, assim, conquistar a simpatia do leitor.
Bernardo Guimarães faz questão de ressaltar exaustivamente a beleza branca e pura de Isaura, que não denunciava a sua condição de escrava porque não portava nenhum traço africano, era educada e nada havia nela que “denunciasse a abjeção do escravo”. O que parece uma escolha preconceituosa e contraditória – contar as agruras da escravidão criando uma escrava branca – talvez seja melhor compreeendido se se levar em conta que a maior parte do público que consumia romances na época era composto por mulheres da sociedade, que apreciavam as histórias de amor.
Somem-se a isso o modelo de beleza feminino de então, caracterizado pela pele nívea e maçãs rosadas do rosto e, principalmente, o objetivo do autor de conquistar a solidariedade do leitor pela escrava, mostrando a que ponto extremo poderia chegar o regime escravocrata: “fisicamente, Isaura não é diferente das damas da sociedade, mas, por ser escrava, é obrigada a viver como os de sua classe, como objeto útil nas mãos de seu senhor”, conforme afirma a crítica Maria Nazareth Soares Fonseca.
O autor claramente conseguiu o que queria. A sociedade brasileira do século XIX, que tanto se apiedou das desventuras de Isaura, aceitou-a porque ela era branca e educada. O autor pôde, assim, demonstrar, através do seu sofrimento, o quanto “é vã e ridícula toda a distinção que provém do nascimento e da riqueza”. E é claro, a cor de Isaura serve, como afirma o crítico Antônio Cândido, “para facilitar a ação de Álvaro, compreensivelmente apaixonado e decidido a desposá-la, como fez.”
Se houve influência, portanto, do romance A cabana do Pai Tomás, talvez tenha sido apenas no que o crítico Alfredo Bosi aponta como referência: a cena da fuga de Campos para Recife, “talvez sugerida pela fuga de Elisa através dos gelos flutuantes de Ohio para a liberdade no Norte e por fim no Canadá”. Entretanto, o fato é que, como aponta o crítico, só depois do lançamento de A cabana do Pai Tomás “a literatura brasileira começou a ser povoada de feitores cruéis e de escravos virtuosos”.
A LINGUAGEM
O tratamento exageradamente romântico que o autor aplica neste livro faz com que ele tenha um caráter mais de lenda do que de realidade, ao contrário de seus outros romances, como O Ermitão de Muquém (1864), O Seminarista (1872) e O Garimpeiro (1872), em que a descrição regionalista do ambiente físico e social proporciona mais verossimilhança à trama.
Em A Escrava Isaura, o excesso de imaginação se traduz em “idealização descabida”, como afirma Antonio Candido, que se concretiza no plano da linguagem em descrições repetitivas e mecânicas dos personagens, com abuso de adjetivos redundantes.
Observe-se a descrição de Isaura quando senta-se ao piano no salão de baile no Recife:
“A fisionomia, cuja expressão habitual era toda modéstia, ingenuidade e candura, animou-se de luz insólita; o busto admiravelmente cinzelado ergueu-se altaneiro e majestoso; os olhos extáticos alçavam-se cheios de esplendor e serenidade; os seios, que até ali apenas arfavam como as ondas de um lago em tranqüila noite de luar, começaram de ofegar, túrgidos e agitados, como oceano encapelado; seu colo distendeu-se alvo e esbelto como o do cisne, que se apresta a desprender os divinais gorgeios. Era o sopro da inspiração artística, que, roçando-lhe pela fronte, a transformava em sacerdotisa do belo, em intérprete inspirada das harmonias do céu.”
O AMOR E A DONZELA INEXPUGNÁVEL
“Os motivos que compõem romance”, segundo Cavalcanti Proença, “são filiados nos velhos e perenes topos” – ou temas – “da literatura popular. O amor à primeira vista é um deles. Ver e amar é um verbo só. E isso porque a narrativa não é a história de um amor, mas dos sofrimentos do amor. (…) Para isso se entretecem os conflitos de escrava que não tem direito de amar, os do homem casado que não deve trair a esposa. (Amor verdadeiro só o primeiro.)”
Entre esses temas, há um que remonta à literatura medieval e que domina a narrativa como um todo, a partir da descrição de Isaura como pura e virtuosa, lutando contra a luxúria do seu senhor. É o da donzela inexpugnável, que defende sua pureza com todas as forças de que dispõe, preferindo arriscar-se à morte na fuga a se entregar sexualmente.
Entre os precursores da literatura folhetinesca está o romancista e tipógrafo inglês Samuel Richardson (1689-1761). A sua novela Pamela, ou a Virtude Recompensada, publicada em 1741, certamente é uma das fontes de inspiração mais contundentes para a composição do romance de Bernardo Guimarães. Nessa obra, Richardson narra as desventuras de Pamela Andrews, filha de camponeses que é educada por uma senhora nobre que, ao morrer, a entrega aos cuidados de seu filho, o Conde de Belfart. Esse jovem inescrupuloso atenta contra a virtude de Pamela, assediando-lhe com ameaças vis e acaba por entregar-lhe a uma vulgar alcoviteira. Mas Pamela, como Isaura, consegue defender-se, mantendo intacta a sua honra. Acaba por comover com suas lágrimas abundantes o Conde de Belfart que, arrependido, termina se casando com a heroína.
Bernardo Guimarães acrescenta à trama romanesca inventada por Richardson a figura do cavalheiro salvador Álvaro e a temática bem brasileira da escravidão.
Também Castro Alves, o maior dos nossos escritores abolicionistas, refere-se à defesa da virtude das escravas, em poemas como Súplica, do livro Os Escravos (1883):
“Que a donzela não manche em leito impuro
A grinalda do amor.
Que a honra não se compre ao carniceiro
Que se chama senhor.”
Vida e Obra
de Bernardo Guimarães
Um escritor popular
Bernardo Joaquim da Silva Guimarães, filho de Constança Beatriz de Oliveira Guimarães e João Joaquim da Silva Guimarães, nasceu em Ouro Preto, Minas Gerais, em 15 de agosto de 1825. Aos quatro anos mudou-se com a família para Uberaba, onde fez o curso primário. O secundário, iniciou em Campo Belo e terminou em Ouro Preto. Em 1847, aos 24 anos, matriculou-se na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo.
Ao contrário dos estudos jurídicos, de que não gostava e por pouco não fora reprovado, o ambiente acadêmico – boêmio, festivo e influenciado pelas idéias do Romantismo - o atraía e o estimulava a desenvolver sua vocação pela literatura. Contemporâneo de escritores e poetas como José de Alencar e Casimiro de Abreu, torna-se amigo íntimo dos poetas Álvares de Azevedo e Aureliano Lessa. Tudo indica – mas nada prova – que tenha participado da famosa “Sociedade Epicuréia”.
A capital paulista era, então, habitada por não mais de 15 mil pessoas, que viviam escandalizadas com as aventuras devassas dessa sociedade se-creta de estudantes, fundada em 1845. Seus membros, alunos da Academia, chamavam-se uns aos outros pelos nomes de personagens do Lord Byron e tinham, como objetivo principal, colocar em prática as “extravagantes fanta-sias” do poeta inglês. Realizavam orgias intermináveis e, diz a lenda, cerimônias macabras nos cemitérios paulistanos.
Antes da morte precoce de Álvares de Azevedo (1831-1852), os três amigos planejavam publicar um livro de versos, intitulado As Três Liras, nunca concretizado.
Terminado o bacharelado em Direito em 1852, Bernardo Guimarães foi nomeado juiz municipal de Catalão, em Goiás e publica, neste mesmo ano, Cantos da solidão, seu primeiro livro de poemas.
Depois de passar seis anos em Goiás, o escritor muda-se para o Rio de Janeiro e, entre 1858 e 1860, trabalha como jornalista e crítico literário no jornal Atualidade. Retorna a Goiás em 1861, novamente como juiz municipal de Catalão. No mesmo ano, resolve absolver e libertar todos as pessoas presas por delitos de pouca importância, já que a cadeia pública estava abarrotada. Faz isso em um julgamento sumário, ousadia que lhe rende um processo. Defende-se e é absolvido, mas sua carreira jurídica ficou comprometida.
Em 1864, vai para o Rio de Janeiro e, em 1866, volta para Ouro Preto, onde se casa com Teresa Maria Gomes, com quem viria a ter oito filhos. Em Ouro Preto, leciona retórica e poética no Liceu Mineiro durante pouco tempo, pois o curso logo foi extinto. Anos depois, em 1873, em Queluz (MG), o fato se repetiu: o curso de latim e francês, ministrado por Bernardo Guimarães, também foi cancelado. Um dos seus biógrafos, Basílio de Magalhães, acredita que o motivo foi o mesmo em ambos os casos: a ineficiência de Bernardo Guimarães como professor e sua pouca assiduidade às aulas.
No entanto, a partir de 1869, Bernardo Guimarães já começava a se destacar como escritor de prosa de ficção, com a publicação de seu primeiro romance, O ermitão de Muquém. Três anos depois, publica duas de suas principais obras: O seminarista e O garimpeiro. Mas foi com a primeira edição de A Escrava Isaura, em 1875, em meio à campanha abolicionista, que o escritor ganhou fama e popularidade.
Aos 58 anos, em 10 de março de 1884, Bernardo Guimarães morreu em Ouro Preto, deixando inacabadas as obras: A história de Minas Gerais, encomendada pelo imperador D. Pedro II, em 1881, e o romance O bandido do Rio das Mortes.
Em 1896, portanto doze anos após a sua morte, foi designado patrono da cadeira no 5 da Academia Brasileira de Letras.
Professor por vocação
Nós...
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Memórias de um sargento de milícias - Manoel Antônio de Almeida
Análise da obra
O único romance de Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um Sargento de Milícias, publicado em 1852-53 sob a forma de folhetins, difere em muitos aspectos dos romances comumente publicados em folhetins do século XIX, o que explica sua fraca popularidade na época, e sua melhor aceitação na posteridade. O romance tem esse título por narrar a história de Leonardo Pataca, um vadio que acaba se transformando num sargento de milícias no tempo de D. João VI. Memórias de Um Sargento de Milícias é uma obra que contrasta com os romances românticos de sua época e possui traços que anunciam a literatura modernista do século XX, por várias razões. Primeiro, por ter como protagonista um herói malandro (Leonardo é o primeiro malandro da literatura brasileira), ou um “anti-herói”, na opinião de alguns críticos. Segundo, pelo tipo especial de nacionalismo que a caracteriza, ao documentar traços específicos da sociedade brasileira do tempo do rei D. João VI, com seus costumes, os comportamentos e os tipos sociais de um estrato médio da sociedade, até então ignorado pela literatura. Terceiro, pelo tom de crônica que dá leveza e aproxima da fala sua linguagem direta, coloquial, irônica e próxima do estilo jornalístico.
O sentido profundo das "Memórias" está ligado ao fato de elas não se enquadrarem em nenhuma das racionalizações ideológicas reinantes na literatura brasileira de então: indianismo, nacionalismo, grandeza, sofrimento, redenção pela dor, pompa do estilo etc. Na sua estrutura mais íntima e na sua visão latente das coisas, elas exprimem a vasta acomodação geral que dissolve os extremos, tira o significado da lei e da ordem, manifesta a penetração recíproca dos grupos e das idéias, das atitudes mais díspares, criando uma espécie de terra-de-ninguém moral, onde a transgressão é apenas um matiz na gama que vem da norma e vai ao crime.
Novela de tom humorístico que faz crônica de costumes do Rio Colonial, na época de D. João VI. O romance reporta-se a uma fase em que se esboçava no país uma estrutura não mais puramente colonial, mas ainda longe do quadro industrial-burguês.
Não há idealização das personagens, mas observação direta e objetiva. Presença de camadas inferiores da população (barbeiros, comadres, parteiras, meirinhos, "saloias", designados pela ocupação que exercem). Os personagens não são heróis nem vilões, praticam o bem e o mal, impulsionados pelas necessidades de sobrevivência (a fome, a ascensão social).
Estrutura da obra
A novela está dividida em duas partes bem distintas: a primeira com 23 capítulos e a segunda com 25.
Os episódios são quase autônomos, só ligados pela presença de Leonardo, dando à obra uma estrutura mais de novela que de romance, como já ficou observado.
O leitor acompanha o crescimento do herói com sua infância rica em travessuras, a adolescência com as primeiras ilusões amorosas e aventuras, e o adulto, que, com o senso de responsabilidade, que essa idade exige, vai-se enquadrando na sociedade, o que culmina com o casamento.
Foco narrativo
Memórias de um Sargento de Milícias é romance narrado em terceira pessoa, sendo um narrador-observador quem conta a história. O cinismo bem-humorado, as sistemáticas interferências nas situações sempre divertidas que relata, as ironias e as brincadeiras envolvendo costumes e personagens da época constituem alguns traços marcantes deste narrador, cujo juízo crítico a respeito do que vai documentando algumas vezes revela-se de forma claramente debochada.
Além de romper com a tradicional postura idealizadora do narrador romântico, em relação aos indivíduos e também à terra, o narrador da obra ora suprime etapas narrativas, ora transita da terceira para a primeira pessoa. Assim, ele assume uma cumplicidade de caráter metalingüístico com o leitor, o que significa um anúncio de procedimentos modernistas, também percebido nas conversas com o leitor e nos comentários jocosos que faz à propósito do que conta.
Personagens
Leonardo: anti-herói, herói às avessas, herói picaresco - desde a infância é esperto, vagabundo e mulherengo, assemelha-se ao protagonista, Macunaíma.
Leonardo-Pataca: oficial de justiça, sentimental, sempre enroscado em suas paixões.
Maria-da-Hortaliça: mãe do herói
Major Vidigal: temido e respeitado por todos.Severo punidor, é, ao mesmo tempo, policial e juiz.
Comadre: protetora de Leonardo, vive tentando livrá-lo dos enroscos em que se metia.
Compadre Barbeiro: outro protetor. Cria o menino como se fosse o seu filho, sonhando um próspero futuro para ele; só que isso não acontece.
D. Maria: velha, rica e bondosa. Era apaixonada por causas judiciais. Tia e tutora de Luisinha, amiga da comadre e do compadre.
Luisinha: primeiro amor de Leonardo. Suas características fogem da idealização dos modelos românticos: era feia, pálida e desajeitada.
José Manuel: caça-dotes, representa uma crítica à burguesia.
Vidinha: cantora de modinas, segunda paixão de Leonardo.
Chiquinha: filha de D. Maria e esposa de Leonardo-Pataca.
Maria-Regalada: amante de Vidigal.
Além desses, há outros como: A vizinha, a cigana, o mestre-de-rezas, Tomás, etc.
Os personagens encaixam-se na categoria de tipos alegóricos, pois não possuem profundidade psicológica e são como caricatura de uma classe social: o povo, a classe média carioca da época.
Resumo
O narrador, baseando-se em uma história contada por um sargento de milícias aposentado, adota a postura de contador de histórias para narrar os costumes e acontecimentos de mais ou menos cinqüenta anos atrás. Logo, o narrador não viveu na época das estripulias de Leonardo.
I – Origem, nascimento e batismo - É a apresentação do protagonista Leonardo. O narrador, baseando-se na história que um sargento de milícias aposentado lhe contou, narra a vida e os costumes do Rio de Janeiro na época em que D. João VI esteve no Brasil, daí iniciar com: Era no tempo do rei. – volta a um passado não muito distante.
No Rio de Janeiro, na rua do Ouvidor, havia um local em que os meirinhos se reuniam, daí o nome o canto dos meirinhos, os meirinhos da época em que vivia o narrador, Segunda metade do século XIX, eram apenas uma sombra caricata daqueles do tempo do rei, gente temida e temível, respeitada e respeitável e a sua influência moral era a de formarem um dos opostos da cadeia judiciária; mas além da influência moral tinham também a influência que derivava de suas condições físicas, que é o que falta nos meirinhos de hoje (época em que vivia o narrador da obra), estes são homens como quaisquer outros, confundem-se com qualquer procurador, escrevente de cartório ou contínuo de repartição; já os da época do rei eram inconfundíveis tanto no semblante quanto no trajar: “sisuda casaca preta, calção e meias da mesma cor, sapato afivelado, ao lado esquerdo aristocrático espadachim, e na ilharga direita penduravam um círculo branco cuja significação ignoramos, e coroavam tudo isto por um grave chapéu armado. Nesta época ele podia usar e abusar da sua posição.
Após a comparação, o narrador chama o leitor para participar da narrativa, usando para isso, a primeira pessoa do plural: “Mas voltemos à esquina , à abençoada época do rei”, e lá apresenta-lhe a equação meirinhal; um grupo de meirinhos conversando sobre tudo que era lícito conversar: vida dos fidalgos, fatos policiais e astúcias do Vidigal. No grupo destacava-se Leonardo-Pataca, uma rotunda e gordíssima figura de cabelos brancos e carão avermelhado; era moleirão e pachorrento; como era moleirão, ninguém o procurava para negócios e ele nunca saía da esquina, passava os dias sentado, tendo a sua infalível companheira depois dos cinqüenta, a bengala. Como sempre se queixava dos 320 réis por citação, deram-lhe o apelido de Pataca.
Cansado de ser o Leonardo algibebe de Lisboa viera ao Brasil e não se sabe por proteção de quem havia alcançado o posto de meirinho. Ainda a bordo do navio, conhecera Maria da hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia rechonchuda e bonitona. Eles se conheceram quando ela estava encostada à bordo do navio e ele, ao passar, fingiu-se de distraído e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo beliscão nas costas da mão esquerda.
De beliscões e pisadelas, tornaram-se amantes e quando saltaram em terra ela começou a sentir certos enojos. Os dois foram morar juntos e sete meses depois, manifestaram-se os efeitos da pisadela, nasceu o herói dessa história, um formidável menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão. Assim que nasceu, mamou duas horas seguidas, sem largar o peito.
Os padrinhos de batismo foram a madrinha parteira e o compadre barbeiro, foi uma festança; o compadre trouxe a rabeca e todos dançaram o fado e apesar da dificuldade em encontrar pares, o minueto; Leonardo queria uma festa refinada, mesmo com dificuldade em achar pares. Levantaram: uma mulher gorda, baixa e matrona, sua companheira, cuja figura era a mais completa antítese da sua, um colega do Leonardo, miudinho e pequenino, com ares de gaiato e o sacristão da Sé, alto e magro, com pretensões de elegante.
Enquanto compadre tocava o minueto na rabeca, o afilhadinho acompanhava cada arcada com um guincho e um esperneio, fazendo o compadre perder, várias vezes, o compasso.
Aos poucos o minueto foi desaparecendo e a coisa esquentou, chegaram os rapazes da viola e machete; logo, a coisa passou de burburinho para gritaria e algazarra, que só parou quando perceberam que o Vidigal estava por perto.
A festa acabou tarde. A madrinha foi a última a sair, mas antes colocou um raminho de arruda no pimpolho.
II – Primeiros infortúnios - O narrador, mais um vez, inclui o leitor na narrativa, chamando-o para pularem alguns anos desde o batizado do herói e irem encontrá-lo com sete anos, mas antes avisa que durante todo esse tempo o menino não desmentiu aquilo que já se anunciava, ou seja, desde o nascimento já atormentava: ainda bebê era o choro, mas assim que se pôs a andar era um flagelo, quebrava e rasgava tudo o que podia; o que mais gostava era do chapéu do pai e sempre que podia por-lhe as mãos, punha-lhe dentro tudo o que encontrava. Quando não traquinava, comia. Maria não lhe perdoava, tanto que o menino trazia uma região do corpo bem maltratada, mesmo assim ele não se emendava, era teimoso, suas travessuras recomeçavam mal acabava a dor das palmadas. Foi assim que o herói chegou aos sete anos.
Como a mãe, Maria, sempre fora saloia, o pai, Leonardo, suspeitava de que estava sendo traído, pois por diversas vezes viu um certo sargento se esgueirando e enfiando olhares curiosos janela adentro. Outras vezes estranhou que um certo colega sempre ia procurá-lo em casa; mas o mais grave foi, não só deparar-se várias com um certo capitão do navio de Lisboa junto de sua casa, como também, ao entrar em casa, vê-lo fugir pela janela. Não agüentou, cerrou os punhos e tremendo com todo o corpo, gritou: — Grandessíssima!..., em seguida, saltou sobre Maria. Ela saltou para trás, pôs-se em guarda e sem temer advertiu-o: — Tira-te lá, ó Leonardo!
Como a sua resistência, frente ao ódio de Leonardo, era inútil, começou a correr e pedir socorro ao compadre Barbeiro que ocupado, ensaboando a cara de um freguês, nada pôde fazer e ela, como única opção, encolheu-se em um canto.
O menino, no maior sangue-frio, enquanto rasgava as folhas dos autos que o pai havia largado ao entrar, assistia à mãe que apanhava.
Quando o pai estava se acalmando, viu a obra do filho e tornou a se enfurecer: suspendeu o filho pelas orelhas, fazendo-o dar meia volta; em seguida ergueu o pé direito e dizendo que o menino era filho de uma pisadela e de um beliscão, assentou-lhe em cheio sobre os glúteos, atirando-o a quatro braças de distância.
O menino ergueu-se rapidamente e em três pulos estava dentro da loja do padrinho; nem bem havia entrado, esbarrou na bacia de água com sabão que estava nas mãos do padrinho e acabou batizando o freguês com toda aquela água.
O afilhado apontou o problema e o padrinho, após desculpar-se com o freguês, resmungou: — Ham! resmungou; já sei o que há de ser... eu bem dizia... ora ai está!... e foi acudir o que acontecia.
Por estas palavras vê-se que ele suspeitara alguma coisa; e saiba o leitor que suspeitara a verdade. - Não se pode deixar de perceber nesse fragmento que o narrador conversa com o leitor, chamando-o para a narrativa.
O compadre já sabia o que estava acontecendo pois era comum, na época, espionar a vida alheia, logo, conhecia todas as visitas da comadre.
O barbeiro entrou na casa do compadre Leonardo e ao perguntar-lhe se havia perdido o juízo, ele respondeu-lhe Ter perdido a honra. Maria apareceu e sentindo-se protegida pelo compadre, pôs-se a zombar e a xingar toda a classe masculina; assim que acalmou o segundo “round” de murros, enquanto ela chorava em um canto, Leonardo, com olhos e bochechas vermelhas, juntou os papéis rasgados, a bengala e o chapéu e saiu batendo a porta. Era de manhã.
À tarde quando o compadre retornou à casa, decidido fazer as pazes com Maria, ela não estava mais lá, havia fugido com o capitão do navio de Lisboa.
Leonardo saiu sem falar nada e o pequeno ficou com o Compadre Barbeiro.
III – Despedidas às travessuras - O pequeno, enquanto se achava novato na casa do padrinho, portou-se com sisudez e seriedade, mas assim que foi se familiarizando com o novo ambiente, começou a pôr as manguinhas de fora; mesmo assim, o padrinho estava cego de afeição pelo menino, tanto que por pior que fosse a travessura do garoto ou mal-criação, ele achava graça dizendo serem atitudes ingênuas.
A atitude do homem era natural, visto que ele já tinha 50 e tantos anos, nunca tinha tido afeições; passara sempre só, isolado; era verdadeiro partidário do mais decidido celibato. Logo à primeira afeição que fora levado a contrair sua alma expandiu-se toda inteira, e seu amor pelo pequeno subiu ao grau de rematada cegueira.
Este, aproveitando-se da imunidade em que se achava por tal motivo, fazia tudo quanto lhe vinha à cabeça.
O menino era de fato endiabrado: várias vezes sentado na loja divertia-se em fazer caretas aos fregueses quando estes se estavam barbeando. Uns riam e outros se enfureciam, do que resultava que saíam muitas vezes com a cara cortada, com grande prazer do menino e descrédito do padrinho. Outras vezes escondia em algum canto a mais afiada navalha do padrinho, e o freguês levava por muito tempo com a cara cheia de sabão mordendo-se de impaciência enquanto este a procurava; ele ria-se furtiva e malignamente. Em casa, nada ficava inteiro por muito; pelos quintais atirava pedras aos telhados dos vizinhos; sentado à porta da rua, entendia com quem passava e com quem estava pelas janelas, de maneira que ninguém por ali gostava dele. O padrinho porém não se dava disto, e continuava a querer-lhe sempre muito bem. Desempenhando o papel de pai, passava às vezes, as noites fazendo castelos no ar a seu respeito; sonhava-lhe uma grande fortuna e uma elevada posição, e tratava de estudar os meios que o levassem a esse fim. Queria o melhor para o menino, já que havia se arranjado na vida, pensava até em enviá-lo para Coimbra, (como um babeiro havia se arranjado na vida e conseguido dinheiro para isso, segundo o narrador, é assunto para outra história). Segundo o barbeiro, a melhor profissão para o menino seria a de clérigo.
Após ruminar por muito tempo essa idéia, certa manhã, uma Quarta-feira, chamou o pequeno, então com 9 anos, e disse-lhe que deveria se fartar de travessuras até o resto da semana, dali em diante, só aos domingos, após a missa. O pequeno levou a fala do padrinho ao pé da letra e achou que era uma licença ampla para fazer tudo o que quisesse, fosse bem ou mal.
Ao anoitecer, sentado à porta, o padrinho viu de longe um acompanhamento alumiado pela luz de lanternas e tochas e ouviu padres rezarem. Era a via sacra do Bom Jesus.
O menino quando viu aquilo, estremecendo de alegria, lembrou se da fala do padrinho, “fartar-se de travessuras”; não perdeu tempo: misturou-se com a multidão, e lá foi concorrendo com suas gargalhadas e seus gritos para aumentar a vozeria. Com um prazer febril pulava, cantava, gritava, rezava e saltava, era um prazer febril; só não fez o que não tinha forças. Para ajudar ainda mais ass estripulias, juntou-se com mais dois moleques e as estripulias foram tantas, que quando deu por si a via-sacra já havia retornado à igreja do Bom Jesus.
IV – A fortuna - Enquanto o compadre, procura o afilhado por toda a parte, o narrador, ao convidar o leitor para ver o que era feito do Leonardo, acaba chegando nas bandas do mangue da Cidade Nova, em uma casa coberta de palha da mais feia aparência, possuía dois cômodos e a mobília compunha-se de dois ou três assentos de paus, algumas esteiras, uma caixa enorme de pau que servia para várias coisas: mesa de jantar, cama, guarda-roupa e prateleira. Quem morava nessa tapera não era o Leonardo, mas sim um feiticeiro, um caboclo velho, que conforme crença da época, tinha por ofício dar fortuna. Não era só a gente do povo que acreditava, mas também muita gente da alta sociedade o procurava para comprar a felicidade pelo cômodo preço da prática de alguma imoralidades e superstições.
Dentre a gente do povo que o procurava em busca de fortuna, temos o Leonardo Pataca por causa das contrariedades que sofria com um novo amor. Era uma cigana que Leonardo conhecera logo após a fuga de Maria, isso porque ele era romântico - termo que na época do narrador significa babão, já na época de Leonardo Pataca significava que ele não podia passar sem uma paixãozinha. Como a sua profissão rendia não lhe era difícil conquistar a posse do adorado, mas a fidelidade, a unidade no gozo, que era o que sua alma aspirava, isso não conseguira pois a cigana era tão saloia quanto Maria - da - Hortaliça, esta fugira com outro com a desculpa de saudades da pátria, mas a outra não eram saudades, o que fez Leonardo buscar meios sobrenaturais para consegui-la de volta, já que os meios humanos movidos por súplicas não funcionaram.
O seu desespero era tamanho que se entregou de corpo e alma ao caboclo da casa do mangue, além de contribuir com dinheiro, já ter sofrido fumigações de ervas sufocantes, tragar bebidas enjoativas; decorar milhares de orações misteriosas, que era obrigado a repetir muitas vezes por dia; tinha também que depositar quase todas as noites em lugares determinados quantias e objetos com o fim de chamar em auxílio, dizia o caboclo, as suas divindades; apesar de tudo isso a cigana resistia ao sortilégio. A última prova para a reconquista foi marcada para a meia-noite; à hora marcada Leonardo encontrou à porta, o nojento nigromante que não permitiu que ele entrasse vestido, obrigou-o a trajar-se à moda de Adão no paraíso e após cobri-lo com um manto imundo, abriu-lhe a entrada.
Lá dentro, após ajoelhar-se e rezar em todos os cantos da casa, Leonardo aproximou-se da fogueira, quatro figuras saíram do quarto e foram juntar-se a eles e todos dançavam sinistramente ao redor da fogueira quando de repente bateram levemente a porta e pediram para abri-la, isto fez com que todos de dentro se sobressaltassem: era o major Vidigal.
V – O vidigal - Nessa época ainda não estava organizada a polícia da cidade, portanto o major era rei absoluto, era o árbitro supremo de tudo que dizia respeito a esse ramo de administração; era o juiz que julgava e distribuía a pena, e ao mesmo tempo o guarda que dava caça aos criminosos; nas causas da sua imensa alçada não havia testemunhas, nem provas, nem razões, nem processo; ele resumia tudo em si; a sua justiça era infalível; não havia apelação das sentenças que dava, fazia o que queria, e ninguém lhe tomava contas.
Exercia enfim uma espécie de inquirição policial. Entretanto, frente aos costumes e acontecimentos da época, ele não abusava muito de seu poder, e o empregava em certos casos muito bem empregado. Era um homem alto, não muito gordo, com ares de moleirão; tinha o olhar sempre baixo, os movimentos lentos, e voz descansada e adocicada. Apesar deste aspecto de mansidão, não se encontraria por certo homem mais apto para o seu cargo inquisidor.
O major Vidigal juntamente com uma companhia de soldados escolhido por ele rondavam a cidade a noite e a sua polícia durante o dia. Não havia um lugar em que a sagacidade do major não caçasse vagabundos.
Ele espalhava terror.
O som daquela voz que dissera “abra a porta” gerava medo nos integrantes da sala, era o prenúncio de um grande aperto, com certeza não conseguiriam escapar. Mesmo assim, o grupo pôs-se em debandada, tentaram sair pelos fundos, mas a casa estava cercada e todos foram pegos em flagrante delito de nigromancia.
O major por sua vez, já dentro da casa, pediu-lhes que continuassem com a cerimônia pois queria ver como era. Resistir era inútil, então, após hesitarem, recomeçaram ritual. Já fazia meia hora que dançavam andando ajoelhados, mas sempre que paravam o major pedia para continuarem. Muito tempo depois pararam, mas o major pediu-lhes para continuarem. Não agüentavam mais, mas o major pedia para continuarem. Muito, mas muito tempo depois, quando já se arrastavam, o major ordenou-lhes que parassem e pediu aos granadeiros para tocarem, o que fez os soldados arrancarem as chibatas e o grupo feiticeiro dançar muito mais.
Depois de reger a música para a frenética dança, o major Vidigal começou o interrogatório. Perguntou a ocupação de um por um e nada ouviu, até que chegou a vez do Leonardo Pataca, reconheceu-o e quando o pobre homem explicou-lhe o motivo de tudo aquilo, o major prontificou-se a curá-lo e arrastou-o para a casa da guarda no largo da Sé, era uma espécie de depósito que guardava os que haviam sido presos durante a noite até dar-lhes um destino.
Ao amanhecer, toda a cidade já sabia do ocorrido e Leonardo foi mandado para a cadeia o que fez os companheiros mostrarem-se sentidos, a princípio, para logo depois gostarem pois enquanto o colega estava preso eles seriam procurados para os negócios, era um concorrente a menos.
VI – Primeira noite fora de casa - Assim que deu por falta do afilhado, o compadre, todo aflito, pôs-se a procurar pela vizinhança, mas ninguém tinha notícias do menino. Lembrou-se então da via-sacra e pôs se a percorrer as ruas. Indagando, aflitoa, a todos que encontrava pela rua, o paradeiro do seu tesouro. Quando chegou ao Bom-Jesus, informaram-lhe terem visto três endiabrados que foram expulsos da igreja pelo . Essa era a única pista que tinha.
Retornou a sua casa e ao indagar novamente a vizinha, exasperou-se quando esta lhe respondeu que o menino tinha maus bofes e que a história não teria um bom final.
O pobre homem passou a noite em claro e decidiu, antes de pedir ajuda ao Vidigal, esperar mais um dia.
Enquanto o compadre dá esse prazo, o narrador conduz o leitor ao paradeiro do menino.
Junto com os emigrados de Portugal, veio também para o Brasil, a praga dos ciganos, gente ociosa e sem escrúpulos, tão velhacos que quem tivesse juízo não se me tia com eles em negócios; quanto a poesia de seus costumes e crenças, deixaram do outro lado do oceano, trazendo para cá, apenas os maus hábitos. Viviam quase na ociosidade, não tinham noite sem festa. Moravam ordinariamente nas ruas populares e viviam em plena liberdade.
Os dois meninos, com quem o pequeno fizera amizade, eram de uma família dessa gente e acostumados à vida à toa, conheciam toda a cidade, percorriam-na sós. Após se conhecerem na via-sacra, carregaram o pequeno para a casa dos pais. Pelo caminho o menino ainda teve escrúpulos de voltar mas decidiu seguir os dois e ir até onde iriam. Lá , como era de se esperar, havia uma festa para o santo de sua devoção.
Daí a pouco começou o fado e o menino, esquecido de tudo pelo prazer, assistiu a tudo enquanto pôde; mas ao chegar o sono, reuniu-se com os companheiros em um canto e adormeceram, embalados pela música e sapateado.
Acordou sobressaltado e pediu aos companheiros que o levasse para casa.
Quando o padrinho ia recomeçar a busca, esbarrou no afilhado e ao interrogá-lo, ele respondeu que como queria que ele fosse padre, tinha ido ver um oratório.
O padrinho, não resistiu à ingenuidade do afilhado e sorrindo levou-o para dentro.
VII – A comadre - Vale agora falar um pouco de uma personagem que desempenhará um importante papel ao longo da história: é a comadre, a parteira e madrinha do memorando.
Era uma mulher baixa, gorda, bonachona, ingênua ou tola até certo ponto, e fina até outro. Vivia do ofício de parteira e de benzedeira. Era conhecida como beata e papa-missas.
O seu traje habitual era como já se esperava, igual ao de todas as mulheres da sua condição e esfera, uma saia de lila preta, que se vestia sobre um vestido qualquer, um lenço branco muito teso e engomado ao pescoço, outro na cabeça, um rosário pendurado no cós da saia, um raminho de arruda atrás da orelha, tudo isto coberto por uma clássica mantilha, junto à renda da qual se pregava uma pequena figa de ouro ou de osso.
O uso da mantilha era um arremedo espanhol e segundo o narrador era uma coisa poética pois revestia as mulheres de um certo mistério, realçava lhes a beleza, mas a mantilha das mulheres brasileiras era muito mais prosaico do que se podia imaginar, principalmente usadas por gordas e baixas. As mantilhas usadas nas brilhantes festas religiosas, nem se fala, pois a igreja tomava um ar lúgubre ao se encher daqueles vultos negros que se uniam e cochichavam a cada momento.
Apesar de tudo, a mantilha era o traje mais conveniente da época, posto que as ações dos outros era o principal cuidado de quase todos, era necessário ver sem ser visto. Funcionava como um observatório da vida alheia.
O fato de ser parteira, beata e curandeira, tomava-lhe muito tempo, tanto que fazia tempo que não via nem sabia nada do compadre, Leonardo, Maria e do afilhado, até que um dia na Sé, ouviu as beatas comentarem sobre Maria Ter apanhado de Leonardo, ter fugido com um capitão e o filho, um mal-educado, ter ficado com o barbeiro.
Ao ouvir a história, pôs-se rumo à casa do barbeiro, lá chegando questionou o fardo deixado para o homem carregar. Após Ter respondido ao interrogatório da comadre, pôs-se a defender o pequeno, dizendo ser sossegadinho, gentil e ter intenções de ser padre.
A comadre não concordou como compadre e retirou-se.
A partir desse dia, a comadre sempre aparecia na casa do compadre.
O padrinho, não desistindo de seus sonhos, pôs se a ensinar o ABC ao afilhado, que empacava no F.
Após apresentar a comadre, o narrador volta a informar o paradeiro de Leonardo.
VIII – O pátio dos bichos - No palácio del-rei, conhecido nos tempos do narrador como paço imperial, existia no saguão, uma saleta, conhecida com salão dos bichos, apelido dado em conseqüência de seu uso: Diariamente, passavam por ele três ou quatro oficiais superiores velhos, incapazes para a guerra e inúteis para a paz, eram pouco usados pelo rei, logo passavam ociosos a maior parte do tempo. Dentre eles, destaca-se um português, era tenente-coronel. A sua importância na história e que foi ele quem a comadre procurou para pedir a libertação de Leonardo.
Após ouvi-la, o velho colocou o chapéu armado, pôs a espada à cinta e saiu. Em breve, saber-se-á do resultado.
IX – O arranjei-me do compadre - Aqui, o narrador revelará alguns fatos da vida do compadre, até agora desconhecidos: o compadre nada sabia de seus pais ou parentes e quando jovem, achou-se na casa de um barbeiro, não sabia se estava lá como filho ou agregado; não só cuidava do barbeiro como também herdara dele a profissão.
Já adolescente, sabia barbear e sangrar sofrivelmente e como jamais conseguiria se manter com essa profissão, visto que o sucesso e fregueses cabiam ao seu mestre, saiu sem rumo. Como todo barbeiro é tagarela, conheceu um marujo que acabou colocando-o a bordo, como barbeiro e sangrador.
A bordo, ganhou fama quando sangrou e curou dois marujos doentes e com sua lanceta não deixou nenhum negro do carregamento morrer.
Poucos dias antes de chegar ao Rio, o capitão do navio adoeceu e nem com a Quarta sangria ele melhorou. Havia chegado a hora do capitão, não havia sangria que o salvasse. Moribundo e em segredo, o capitão, que confiava no barbeiro, entregou-lhe uma caixa, deu lhe o endereço e pediu-lhe que entregasse a sua filha, em seguida disse que espiaria a sua tarefa lá do outro mundo. Pouco tempo depois, o capitão morreu. A partir daí, o barbeiro já não sangrava mais como antes e decidiu não embarcar mais. Quanto a história do capitão, sequer havia testemunhas então, o compadre instituiu-se como herdeiro do capitão. Foi assim que ele se arranjou na vida.
X – Explicações - O velho tenente-coronel, apesar de virtuoso, bom e de estar numa idade inofensiva, tinha um sofrível par de pecados da carne, tanto que aos 36 anos havia deixado em Lisboa, um filho. Aos 20 anos era um cadete desordeiro, jogador e insubordinado. Deixava o pai, um homem de respeito, desesperado.
Poucos dias antes de embarcar para o Brasil, em companhia de el-rei, o infeliz pai foi procurado por uma mulher velha, baixa, gorda e vermelha, vestida, segundo o costume das mulheres da mais baixa classe do seu país: um vestido de chita e um lenço branco, triangular sobre a cabeça e preso embaixo do queixo. Estava nervosa e agitada, seus lábios franzinos e franzidos estavam apertados um contra o outro, como se segurassem uma torrente de injúrias. Assim que chegou em frente ao capitão, era esse o posto do velho tenente-coronel na época, olhou-o com ar resoluto e enfurecido, fazendo-o, instintivamente, dar um passo atrás.
Ela, colocando as mãos nas cadeiras e chegando a boca bem perto do rosto do capitão, logo já se pôde deduzir: o problema era com o filho do capitão que pôs-se a namorar Mariazinha, filha da velha nervosa. Segundo a mulher, foi namoro pra lá, namoro pra cá e... brás!..
O capitão foi às nuvens. A mulher ainda afirmou que o rapaz havia prometido casamento a filha.
Após pensar um segundo, viu que não poderia deixar o filho casar-se com a filha de uma colareja e além do mais, o que ele ganhava como cadete não era suficiente para o rapaz sustentar uma família. Então, o capitão disse a mulher que pensaria no caso.
O capitão, em apuros, procurou a mulher e ofereceu alguma coisa para que ela se calasse e não estourasse.
Não deu para ele pensar muito no assunto pois havia chegado a hora. Então, deixando o filho aos cuidados de conhecidos, partiu.
Já no Brasil, anos depois, soube que a tal Mariazinha estava no Rio de Janeiro, em companhia de Leonardo. Era a Mariazinha, a famosa Maria-da-Hortaliça.
Sabe-se agora o porquê de o velho tenente-coronel prometer ajudar Leonardo: acontece que o velho, procurando satisfazer o seu escrúpulo de pai honrado, fazia o que podia pela moça que seu filho havia desonrado. Em segredo havia feito um trato com a comadre, ou seja qualquer necessidade que Maria-da-hortaliça sofresse, ele supriria, bastaria que a comadre o informasse.
Como a comadre o ajudava, ele deveria ajudá-la, é essa troca de favores que fê-lo, assim que falou com a comadre, dirigir-se à cadeia e após ouvir a história vinda da boca de Leonardo, dirigiu-se à casa de um amigo, um fidalgo.
Em poucas palavras o tenente-coronel pôs-lhe a par de tudo e o fidalgo prometeu ajudar.
O velho tenente-coronel, satisfeitíssimo pôs-se rumo à cadeia a fim de contar a novidade a Leonardo.
XI – Progresso e atraso - Após todas essas explicações , apresentações e origem dos personagens, o narrador volta a se concentrar no memorando, ou seja em Leonardo, afilhado do barbeiro, pois a última vez que fora mencionado estava encalhado no F e agora já está no P, de novo empacado, mas o progresso do menino havia deixado o padrinho muito contente. O difícil era fazê-lo decorar o padre-nosso, em vez de dizer “venha a nós o vosso reino”, ele dizia : “venha a nós o pão nosso”. O maior suplício para o menino era ir à missa ou ao sermão.
Mesmo assim, enquanto todos viam em Leonardo um grande peralta, principalmente a vizinha, o padrinho não perdia as esperanças de vê-lo um clérigo.
Era a tal vizinha uma dessas mulheres que se chamam de faca e calhau, valentona, presunçosa, e que se gabava de não ter papas na língua: era viúva, e importunava a todo o mundo com as virtudes do seu defunto. Ela não perdia tempo em desmentir o vizinho em suas esperanças a respeito do afilhado.
Certo dia, o barbeiro não suportou mais, pois certo dia, ao chegar a loja, a vizinha, à janela, perguntou-lhe, em zombaria, onde estava o seu reverendo.
O barbeiro, vermelho, foi às nuvens e quando ela perguntou se o menino já sabia o padre-nosso, o homem não agüentou e exasperando-se respondeu-lhe que o menino já sabia e que ele o fazia rezar todas as noites para seu marido que estava dando coices no inferno.
A mulher retrucou e chamou-o de raspa-barbas.
A discussão foi longe.
Quando o compadre perguntou a mulher o porquê de ele implicar tanto com uma criança que nunca havia lhe feito mal, ela respondeu que ele vivia jogando pedras no telhado, fazia-lhe caretas e a tratava como se fosse uma saloia ou mulher de barbeiro.
O menino ao ouvir tanto estardalhaço, pôs-se a porta e começou a arremedá-la. O compadre achou tanta graça que sentiu-se vingado e desatou a rir.
Enquanto a discussão termina, o narrador aproveita para informar que o barbeiro sabia da prisão de Leonardo mas não se importava.
Assim que o velho tenente-coronel colocou Leonardo na rua, decidiu tomar Leonardo para a sua proteção, acreditando que se conseguisse felicitá-lo, lavaria o seu filho do pecado; tanto que pediu à comadre que oferecesse ao compadre seu préstimo para o pequeno, chegou a pedir que o deixasse ir para a sua companhia.
O compadre recusou e disse que era a sua função, para tampar a boca da vizinhança, transformar o menino em gente.
XII – Entrada para a escola - Para evitar repetir a história das mil travessuras do menino, que exasperaram a vizinhança e desgostaram a comadre sem reduzir a amizade do barbeiro pelo afilhado, o melhor e informar que os progressos do menino agradavam o padrinho, pois o pequeno já lia, sofrivelmente e aprendera a ajudar na missa.
Preocupado com o futuro da criança foi procurar um mestre, Era este um homem todo em proporções infinitesimais, baixinho, magrinho, de carinha estreita chupada, excessivamente calvo; usava de óculos, tinha pretensões de latinista, e dava bolos nos discípulos por dá cá aquela palha. Era um dos mais acreditados na cidade. O barbeiro entrou acompanhado do afilhado. Era Sábado, os bancos estavam cheios de crianças; os dois entraram exatamente na hora da tabuada cantada, uma espécie de ladainha de números, era monótono e insuportável, mas os meninos gostavam.
As vozes dos meninos, acompanhadas pelos passarinhos nas gaiolas, faziam uma algazarra de doer os ouvidos.
Na Segunda-feira, lá estava o menino, munido de sua pasta a tiracolo, a sua lousa e o seu tinteiro de chifre. Logo no primeiro dia levou quatro bolos o que o fez declarar guerra viva à escola.
Na saída, assim que viu o padrinho, disse-lhe que não voltaria mais à escola, não queria ter que apanhar para aprender.
O barbeiro ficou contrariado temendo que a maldita vizinha soubesse que o menino havia apanhado no primeiro dia de escola, mas o pequeno só concordou em retornar caso o padrinho falasse ao mestre para não lhe bater mais. O padrinho, a fim de persuadi-lo, concordou.
O menino entrou na escola desesperado e como não ficasse quieto ou calado, foi colocado de joelhos e nessa posição foi surpreendido atirando uma bolinha de papel nos colegas; resultado: doze bolos, o que fez o menino despejar sobre o mestre, todas as injúrias que sabia.
Segundo o barbeiro, os dezesseis bolos do primeiro dia deviam-se a praga que a vizinha deveria ter jogado, mas ele venceria.
XIII – Mudança de vida - Foi com muito sacrifício que o compadre conseguiu fazer o menino freqüentar a escola por dois anos, levando bolos todos os dias. Apesar de o mestre sustentar a fama de cruel, na verdade os bolos eram merecidos pois o menino era da mais refinada má-criação, sempre desobedecia a tudo que lhe era ordenado.
Não parava quieto.
Nunca uma pasta, um tinteiro, uma lousa lhe durou mais de 15 dias, era um velhaco que vendia aos colegas tudo o que podia Ter algum valor, empregando o dinheiro que conseguia, do pior modo que podia.
No quinto dia de escola disse ao padrinho que já sabia ir sozinho, este acreditou e o afilhado, então somou mais um apelido ao de apanha-bolos-mor, era o de gazeta-mor.
O lugar que mais ficava quando cabulava aulas era a igreja da Sé, pois reunia-se gente e várias mulheres com mantilha, de quem tomara certa zanguinha por causa da madrinha. Lá, no meio da multidão, não o encontrariam se o procurassem.
Como não saía da igreja, fez amizade com um pequeno sacristão tão peralta quanto ele, conseguiam se comunicar apenas com troca de olhares.
Essa vida durou muito tempo, até que o padrinho voltou a acompanhá-lo. O menino decidiu que seria muito agradável acompanhar o colega sacristão, afogando em ondas de fumaça a cara da velha que chegasse mais perto e para isso comunicou ao compadre o seu desejo de freqüentar a igreja, tinha nascido para aquilo. Para o padrinho, foi a maior alegria quando ouviu o menino pedir que lhe fizesse sacristão.
Em poucos dias aprontou-se, e em uma bela manhã saiu de casa vestido com a competente batina e sobrepeliz, e foi tomar posse do emprego. Ao vê-lo passar a vizinha dos maus agouros soltou uma exclamação de surpresa a princípio, supondo alguma asneira do compadre; porém reparando, compreendeu o que era, e desatou uma gargalhada e ao chamá-lo de Sr. Cura, o menino respondeu-lhe que seria e haveria de curá-la.
Era aquilo uma promessa de vingança.
O menino chegou à Sé impando de contente, a batina era como um manto real e foi na maior seriedade que entrou na função de sacristão. Já no dia seguinte, o negócio era outro: durante a missa cantada ele ficou com a tocha e o amigo, com o turíbulo, quando de repente, para infelicidade da vizinha, a quem o menino prometera curar, sem pensar, colocou-se junto aos dois e bastou uma troca de olhar para se colocarem em distância e lugar conveniente: enquanto um, tendo enchido o turíbulo de incenso, e balançando-o convenientemente, fazia com que os rolos de fumaça que se desprendiam fossem bater de cheio na cara da pobre mulher, o outro com a tocha despejava-lhe sobre as costas da
mantilha a cada passo plastradas de cera derretida, a mulher ao exasperar-se ouviu o menino dizer que estava lhe curando. Como a igreja estava apinhada de gente, ela teve que suportar o suplício até o fim. terminada a missa queixou-se ao mestre-de-cerimônias e os dois ganharam uma tremenda sarabanda.
XIV – Nova vingança e seu resultado - Apesar de os meninos não se importarem com a sarabanda, não perdoaram o mestre-de-cerimônias por tê-los humilhado em frente da vítima e resolveram desforrar e foi o caso assim: o pobre homem era um padre de meia idade formado em Coimbra na mais austeridade da igreja católica, poderia fornecer a Bocage assunto para um poema inteiro; pois apesar de, aparentemente, buscar por assunto a honestidade e a pureza corporal, a sua essência era sensual, fato que muitos ignoravam, mas os dois pequenos estavam por dentro de tudo, tanto que sabiam que o padre enviava recados e objetos a uma cigana, a mesma de Leonardo Pataca.
Já fazia três ou quatro dias que o padre não saía por estar decorando o sermão, um sacristão foi incumbido de lhe avisar quando chegasse a hora e os meninos não perderam tempo, o pequeno dirigiu-se à casa e após bater, perguntou, em voz alta, pelo sacristão.
A cigana mandou-o entrar e ele em vez de dizer nove, disse dez horas.
No dia seguinte, às nove em ponto, começou a festa e nada do pregador aparecer, o que fez um capuccino italiano, por bondade, oferecer-se para improvisar o sermão, já havia começado quando o mestre entrou e ambos começaram a disputar o púlpito. Assim que terminou, o mestre-de-cerimônias dirigiu-se ao menino que defendeu-se dizendo que a cigana com quem ele estava era testemunha de que ele havia dito que o sermão seria às nove. O Oh! Que soltaram foi geral, mas o homem desmentiu.
Terminada a festa despediu o menino que nem se importou.
XV – Estralada - Quando Leonardo já havia se esquecido da cigana, descobriu que ela era amante do mestre-de-cerimônias e resolveu procurá-la para salvar sua alma, mas ela disse ter sido procurada por vários meirinhos mas nenhum havia lhe agradado. Então, após ter desejado uma estralada para a mulher, retirou-se jurando vingança.
Dito e feito, contratou Chico-Juca que ganhava para dar pancada e o dia de colocá-lo em ação seria no aniversário da cigana. Após acertar tudo com o brigão, procurou o major Vidigal para falar sobre a festa. O plano deu tão certo que quando os soldados do Vidigal foram revistar o quarto, tiraram de lá, nada menos que o mestre-de-cerimônias em ceroulas, meias pretas e sapatos afivelados. Sem perdão, o padre foi para a casa da guarda.
XVI – Sucesso do plano - O mestre-de-cerimônias não chegou ao xilindró, pois o Vidigal quis apenas dar-lhe um susto. Como era de se esperar, a notícia correu rapidamente e logo depois, todo envergonhado, ele seguiu para casa.
Enfim, Leonardo e a cigana reataram o romance, para desgosto da comadre que tentava enfiar-lhe a sobrinha.
Já o ex-sacristão, para desgosto do compadre, ainda estava com o seu destino incerto.
XVII – D. Maria - Num dia de procissão, o barbeiro, o afilhado, a comadre e a vizinha dos maus agouros estavam hospedados na casa de D. Maria, uma mulher muito velha e muito gorda, era rica, religiosa e caridosa.
Lá, o menino ouviu a vizinha falando dele para a madrinha e como vingança, pisou na barra da saia da mulher que ao se levantar, rasgou em quatro palmos; a única atitude do barbeiro foi rir.
Ali, todos discutiam o destino do menino e ao saírem, D. Maria pediu ao compadre que voltassem para falarem sobre o menino.
XVIII – Amores - Alguns anos depois, o menino tornou-se um vadio-mestre, vadio-tipo, levando o padrinho ao mais
completo desespero.
A comadre conseguiu o que queria, Leonardo Pataca havia se arranjado com a sobrinha.
D. Maria havia envelhecido sofrivelmente e era, na época, tutora de sua sobrinha que estava órfã.
As demais personagens continuam do mesmo jeito.
O memorando, agora adolescente, passou a ser tratado pelo nome, o mesmo do pai, Leonardo. O jovem estava apaixonado por Luisinha, a sobrinha de D. Maria.
Quando Leonardo a viu pela primeira vez, não conteve o riso: era já muito desenvolvida, porém ainda não tinha adquirido a beleza de moça: era alta, magra, pálida: andava com o queixo enterrado no peito, trazia as pálpebras sempre baixas, e olhava a furto; tinha os braços finos e compridos; o cabelo, cortado, dava-lhe apenas até o pescoço, e como andava mal penteada e trazia a cabeça sempre baixa, uma grande porção lhe caía sobre a testa e olhos, como uma viseira.
Mesmo tendo rido de Luisinha, quando o padrinho anunciou a nova visita à D. Maria, o jovem pulou de alegria, foi o primeiro a ficar pronto e lá foram os dois para o seu destino.
XIX – Domingo do Espírito Santo - Como era Domingo de Espírito Santo, ao chegarem a casa de D. Maria, encontraram todos à janela.
Desta vez, ao ver a moça de branco e com os cabelos, penteados, não conseguiu rir, mas sim apreciar a figura da moça. Ela, por sua vez, continuava em seu inalterável silêncio e concentração.
Mais tarde, os quatro iriam ver os fogos.
XX – O fogo no campo - Luisinha estava atônita no meio de todo aquele movimento, mas Leonardo a puxava pelo braço.
Para deleite de Leonardo, após a queima de fogos, os dois voltaram de mãos dadas.
XXI – Contrariedades - Como aqui se faz e aqui se paga, chegou a hora de Leonardo pagar os seus tributos: o rapaz estava amando Luisinha, cujo comportamento voltara ao antigo estado de letargia, fato que fez o jovem sofrer grande contrariedade e fingindo desprezo que era despeito, murmurou um - que me importa!
A situação mudou só mudou de figura quando o padrinho e o afilhado depararam com um desconhecido na casa de D. Maria. Era um homenzinho de mais ou menos trinta e cinco anos, magro, narigudo e de olhar penetrante, recém chegado da Bahia; era o Sr. José Manuel. Quem olhasse para a sua cara via logo que pertencia à família dos velhacos. Era uma crônica viva e escandalosa, sempre que podia desfiava um discurso de duas horas sobre a vida alheia. Padrinho e afilhado, nutriam pelo homenzinho, desde a primeira vez que o viram, uma grande antipatia.
O pedantismo com que José Manuel tratava as duas era por um motivo muito simples: Luisinha era a única herdeira de D. Maria, assim, quem se casasse com a moça, daria-se bem.
XXII – Aliança - A presença de José Manuel desagradava aos dois homens, e ele já havia percebido que os dois não gostavam dele. Leonardo amava Luisinha e o padrinho via na moça um excelente meio de vida para o rapaz.
Tamanha era a preocupação do compadre que ele foi falar com a comadre que ficou de falar com D. Maria. Foi assim que se formou uma aliança entre o compadre e a comadre para derrotarem o concorrente de Luisinha.
XXIII – Declaração - Enquanto a comadre tecia planos para derrotar o rival do afilhado, este ardia em ciúmes. Para a sua sorte, Luisinha ignorava tudo e continuava indiferente.
Leonardo, por sua vez, temendo que o compadre e a comadre derrotassem seu rival e ele não pudesse entrar em combate, tentou agir por conta, mas cada vez que ficava a sós com Luisinha, dava-lhe um tremor de pernas que mal conseguia ficar de pé ou articular qualquer palavra. Certa ocasião, a moça estava em pé, perto da janela e ele se aproximou ficando como a uma estátua atrás dela, quando ela se virou, a única reação do rapaz foi a de fazer uma careta; por fim criou coragem e disse-lhe que a queria muito bem; esta por sua vez, ficou cor de cereja e desapareceu pelo corredor.
XXIV – A comadre me exercício - Leonardo-Pataca estava todo feliz, pois do seu relacionamento com Chiquinha, a sobrinha da comadre, nasceu uma pequerrucha, oposta ao irmão, pois era mansa e risonha.
XXV – Trama - Quando a comadre não estava ocupada fazendo partos, ocupava-se em desconceituar José manuel para D. Maria. Então, começou a contar que uma moça muito rica, que vivia com a mãe orando no Oratório de Pedra, havia enchido uma meia preta com jóias e fugido com um homem, o mistério é que ninguém sabia quem era o tal; então, a comadre, aproveitando-se da curiosidade da outra, após fazê-la jurar não contar nada a ninguém, disse que o homem era José Manuel.
XXVI – Derrota - D. Maria ficou estupefada e a comadre satisfeita com o resultado. A fofoca foi interrompida pela chegada de José Manuel, que nem bem havia entrado e começou a falar que andava muito ocupado com uns arranjos
mas não podia falar pois era segredo. As duas trocaram olhares significativos.
Luisinha, desde a declaração de Leonardo, sofreu mudanças significativas tanto física quanto psicológica, passou a erguer os olhos, a falar, a mover-se.
De tanto as duas senhoras cutucarem, José Manuel concordou em falar-lhes do seu negócio (não se pode esquecer de que ele era mentiroso) desde que elas fossem discretas; disse-lhes que havia sido chamado para ir ao palácio, mas assim que a comadre saiu D. Maria quis saber sobre a moça que ele havia roubado, mas o homem jurou e tresjurou que não tinha nada a ver com aquilo, mas D. Maria estava inflexível, resultado: José Manuel saiu na carreira.
XXVII – O mestre-de-reza - Depois do acontecido na casa da D. Maria, José Manuel reconheceu que tinha ali um inimigo e que o motivo seria a sua pretensão à mão de Luisinha, só faltava saber quem.
Rapidamente José Manuel pôs mãos à obra, ou seja, da mesma forma que Leonardo tinha seus protetores, ele teria um; para tanto, recorreu ao mestre-de-reza de D. Maria, que tinha fama de casamenteiro.
O mestre-de-reza entrou em ação logo à noite, pois enquanto conversava com D. Maria, disse-lhe que sabia quem havia roubado a moça.
XXVIII - Transtorno - Enquanto José Manuel agitava a casa de D. Maria, a vida de Leonardo agitava-se tristemente, pois o seu padrinho adoecera. Como D. Maria não conseguiu curá-lo, chamaram o velho da botica que prometeu curá-lo com umas pílulas. A comadre não gostou da idéia das pílulas, chegou até a franzir a testa, pois disse que nunca tinha visto quem as tomasse escapar vivo.
A comadre tinha razão até certo ponto, pois três dias depois o compadre morreu. Na casa do falecido, Leonardo, todos os amigos, vizinhos e conhecidos estavam em prantos.
Quando todos se foram, enquanto Leonardo e Luisinha conversavam, D. Maria e a comadre foram procurar o testamento do compadre e encontraram.
Leonardo era o herdeiro universal do padrinho; quando Leonardo-Pataca ficou sabendo, apresentou-se para tomar conta do filho, mas este não gostou pois lembrou-se do pontapé, mas mesmo assim teve que acompanhá-lo e encontrar-se com a irmã e Chiquinha.
Leonardo-Pataca não só cuidou do testamento como também ficou com tudo; não se pode esquecer-se de que além dos mil cruzados, tinha ainda aquele dinheiro do capitão do navio que ele “pegou”.
Nos primeiros dias tudo foram flores, a família estava novamente unida: Leonardo-Pataca, Leonardo, a irmã e a comadre.
Agora, somente Leonardo e a comadre continuavam as visitas à D. Maria.
A paz familiar durou pouco, pois Leonardo não simpatizava com Chiquinha e esta começou a embirrar com Leonardo, resultado: na casa era a maior balbúrdia.
XXIX - Pior transtorno - Leonardo, após ficar grande tempo na casa de D. Maria sem ver a amada, entrou em casa de mal com a vida e ao se sentar jogou a almofada de Chiquinha no chão; esta por sua vez chamou-o de namorado sem ventura e ele não se fez de rogado, espumando de cólera avançou em Chiquinha que disse-lhe Ter raça de saloio.
Como Leonardo-pataca estava em casa foi acudir e armado do espadim embainhado, atirou-se sobre o filho, chegou D. Maria e apesar de tomar partido do jovem, a única coisa que pôde fazer foi sair à sua procura, pois o pai o havia expulsado de casa.
XXX - Remédio aos males - Após o carreirão que levara, o pobre rapaz, vagando pela cidade e pensando em Luisinha e no rival, chegou ao Cajueiro.
Gargalhadas vindas de uma moita tiraram-no do devaneio, procurou e encontrou um grupo de moças e moços sentados em uma esteira jogando baralho.
Com o estômago roncando, ia se afastando quando um deles o chamou, era o seu antigo camarada, Tomás, aquele menino sacristão da Sé. Este apresentou-lhe a irmão, Vidinha, uma mulatinha de 18 a 20 anos, de altura regular, ombros largos, peito alteado, cintura fina e pés pequeninos; tinha os olhos muito pretos e muito vivos, os lábios grossos e úmidos, os dentes alvíssimos, a fala era um pouco descansada, doce e afinada. Por ser cantora de modinhas, pôs-se a cantar:
Se os meus suspiros pudessem
Aos teus ouvidos chegar,
Verias que uma paixão
Tem poder de assassinar.
Não são de zelos
Os meus queixumes,
Nem de ciúme
Abrasador;
São das saudades
Que me atormentam
Na dura ausência
De meu amor.
Leonardo ouviu a música boquiaberto e nunca mais tirou os olhos da cantora.
XXXI - Novos amores - Já na casa do amigo, enquanto o jovem, pensava em Luisinha, José Manuel e Vidinha, ouvia mais uma música da bela cantora:
Duros ferros me prenderam
No momento de te ver;
Agora quero quebrá-los,
É tarde não pode ser.
Este último passo acabou de desorientar completamente o Leonardo: reconheceu que havia se inclinado um só instante por Luisinha, mas estava apaixonado por Vidinha, mas eram duas irmãs com três filhos e três filhas que moravam numa mesma casa, logo, havia três casais de primos completos, mas dois gostavam de Vidinha, resumindo: Leonardo tinha mais dois rivais, mas sem Ter para onde ir, passou a noite ali.
XXXII – José Manuel triunfa - Enquanto a comadre procurava Leonardo por toda a parte, o jovem ouvia modinhas. Cansada, a comadre acaba indo à casa de D. Maria. Lá, tudo que a comadre falava do afilhado, defendendo-o, D. Maria não concordava, acusava-o; algo estranho acontecia: José Manuel, aliado ao mestre-de-rezas, venceram.
O velho conseguiu inocentar José Manuel e este tinha aprovação de D. Maria para ser pretendente de Luisinha.
XXXIII – O agregado - Algumas semanas depois, Leonardo já era agregado na casa de Tomás da Sé, mas certo dia, ao ser surpreendido abraçado com Vidinha, acabou se atracando com um dos enamorados pela moça.
Como parecia ser sua sina viver como o Judeu Errante, já ia se pondo a andar, quando a comadre o encontrou.
XXXIV – Malsinação - As três velhas, após longa conversa, tornaram-se amigas e a tormenta dos três briguentos cessou e a comadre, cada vez que tentava fazer o afilhado voltar para casa, as duas velhas se metiam, até que, para a alegria de Vidinha, Leonardo resolveu ficar.
A comadre ia regularmente visitar Leonardo e as duas novas amigas. Tudo ia as mil maravilhas, porém os dois primos despeitados tramavam e tramavam algo.
Os dois colocaram o plano em ação no dia em que o grupo saiu para uma patuscada. Quando estenderam a esteira, surgiu o major Vidigal, que assim que chegou quis saber quem era Leonardo e assim que este se identificou, Vidigal o prendeu por vadiagem.
Segundo Vidinha, foi uma malsinação.
XXXV – Triunfo completo de José Manuel - Com o sumiço de Leonardo da casa de D. Maria, José Manuel teve espaço para agir a vontade, tanto que acabou ajudando D. Maria em uma demanda do testamento de Luisinha. Como já tinha adquirido a confiança da velha, aproveitou-se e pediu a moça em casamento.
Luisinha estava naquela idade do abatimento, entre 13 e 25 anos e como não via Leonardo há tempos, aceitou a proposta de forma indiferente.
Num Sábado à tarde, Luisinha e José Manuel casaram-se.
Ora, os leitores hão de estar lembrados da mania que tinha D. Maria por uma demandazinha; atirava-se a ela com vontade, e tal era o empenho que empregava na mais insignificante questão judiciária, que em tais casos parecia ter em jogo sua vida. Daqui se poderá concluir a satisfação que teria ela no dia em que se achava vencedora, e como se não julgaria obrigada a quem lhe proporcionasse a vitória.
José Manuel aproveitou-se disto; e no dia em que veio ler a D. Maria a sentença final que resolvia a pendência em seu favor, pediu-lhe a mão da sobrinha, a qual lhe foi prometida sem grandes escrúpulos.
XXXVI – Escápula - Enquanto o casal está no gozo tranqüilo da lua-de-mel e D. Maria faz cálculos aritméticos aconselhando a sobrinha, Leonardo, a caminho da cadeia, ao ouvir uma confusão, teve uma vertigem, seus ouvidos zuniram, deu um encontrão no granadeiro e fugiu. Pouco depois estava na casa de Vidinha.
Vidigal foi às nuvens, urrava; nunca nenhum garoto havia conseguido fugir. Jurara vingança.
XXXVII – O Vidigal desapontado - Todos riram quando o major Vidigal, após vasculhar uma casa, saiu de mãos vazias. Quando o major ia entrando na casa da guarda, a comadre atirou-se aos seus pés e em prantos pedia a libertação do afilhado.
Todos que a ouviam, riam e quando o major disse que ele havia fugido, ela saiu toda sorridente.
XXXVIII – Caldo entornado - Assim que a comadre chegou à casa de Vidinha, todos puseram-se a rir, mas após a alegria, a comadre começou a passar-lhe um sermão, afirmando que Leonardo tinha que arranjar alguma ocupação, caso contrário cairia nas unhas do Vidigal.
Leonardo prometeu se emendar.
Poucos dias depois, a comadre arranjou-lhe um emprego de servidor na ucharia real.
O major, mordendo os beiços, não o perdia de vista.
Com o novo emprego, a despensa de Vidinha ficou abarrotada, ou seja ele tirava de l’’a e abastecia a casa.
No pátio da ucharia morava um toma-largura na companhia de uma moça bonita. Acontece que o homem era extremamente bruto e Leonardo, na mais pureza dos sentimentos foi à casa da moça levar-lhe uma tigela de caldo. De repente a porta se abre, eras o toma-largura; a moça entornou o caldo, Leonardo pôs-se a correr e o toma-largura, atrás.
Daí a pouco ouviu-se barulho e gritos e Leonardo atravessar o pátio às carreiras.
No dia seguinte o Leonardo foi despedido da ucharia.
XXXIX – Ciúmes - No dia seguinte o Vidigal já sabia de tudo e pôs-se em alerta.
Em casa, Vidinha, enfurecida pelo ciúmes, pediu a mantilha da mãe para ir à ucharia falar com toma-largura . Leonardo que ouvia tudo, sem resultado pediu à moça que não fosse. No caminho, Leonardo deparou-se com o major e foi obrigado a acompanhá-lo.
XL – Fogo de palha - Enquanto Leonardo era obrigado a seguir o “seu destino”, Vidinha já estava na ucharia. Lá, disse à moça do caldo que ela não tinha sentimentos fez um desaforozinho ao toma-largura e saiu, sem saber que era seguida por ele.
XLI – Represálias - Em casa, enquanto Vidinha contava a sua aventura a todos, sentiram falta de Leonardo e reconheceram que este deveria estar com o Vidigal.
No dia seguinte, Tomás, que até então não havia tomado parte de nada na agitada casa, saiu para tomar as providências em favor do amigo.
Tomás foi à casa da guarda, mas não encontrou o amigo; procurou em outros lugares e nada. Sem opção, ele e os demais foram procurar a comadre que também pôs-se a procurar pelo afilhado e nada do moço.
Como Leonardo não dava notícias, acharam que ele estivesse escondido, resultado: Vidinha e os familiares passaram a odiá-lo.
O desaparecimento de Leonardo, aliado a visita que Vidinha fizera à ucharia, contribuíram para que ela visse, todos os dias, toma-largura duas vezes por dia.
Pouco tempo depois os familiares da moça já gostavam dele e ele passou a freqüentar a casa.
Certo dia todos saíram para uma patuscada, mas toma-largura bebeu demais armou-se a confusão, o que gerou no aparecimento de Vidigal e dos granadeiros.
Quando um deles se aproximou para prender toma-largura, todos se surpreenderam; Leonardo havia se tornado um dos granadeiros de Vidigal.
XLII – O granadeiro - Como toma-largura estivesse bêbado, caiu estirado na calçada e o seu tamanho colossal, mas o fato de ser gente da casa real, fez com que os granadeiros deixassem-no ali.
Convém agora, um leve flash-back para saber como Leonardo se tornou um granadeiro. Foi simples, na noite em que fora preso, como o regimento do Vidigal estivesse precisando de soldado, reconheceu que Leonardo seria de grande ajuda, pois conhecia todas as bocas do Rio de Janeiro.
O problema é que sorrateiramente Leonardo aliava-se ao povo e ficava contra o major.
XLIII – Novas diabruras - Um dia o major anunciou que tinha uma grande e importante diligência a fazer. Era prender um banqueiro de jogo-de-bicho e cantor satírico e chamado Teotônio.
Onde havia festa ele era convidado.
Por coincidência, Teotônio estava justamente na casa de Leonardo-Pataca, na festa de batizado de sua filha.
Leonardo fora incumbido de entrar na casa e dar sinal para que prendessem o homem, mas como o jovem era astuto, fez Teotônio livrar-se da prisão, saindo disfarçado de corcunda. Mais uma vez enrolara o Vidigal.
XLIV – Descoberta - Quando a patrulha do Vidigal estava batendo em retirada, um amigo de Teotônio, todo esfuziante, correu a abraçar Leonardo para agradecê-lo por ter enganado o major. O jovem granadeiro ficou estático e foi preso.
Enquanto caminha para o quartel, como será que estão Luisinha e sua gente?
Tudo eram rosas, mas pouco depois da lua-de-mel, José Manuel pôs as manguinhas de fora, de posse da moça e da herança, mudaram-se da casa de D. Maria.
Agora que os dois estavam sozinhos, ele se tornou um marido-dragão, não permitindo que a esposa sequer saísse à rua. A moça chorava pela liberdade.
Certo dia na missa, a comadre e D. Maria se encontraram e voltara a se falar. Uma falava das desgraças de Leonardo e a outra das de Luisinha.
Ambas, agora, teciam planos para a libertação de Leonardo.
XLV – Empenhos - Primeiro a madrinha foi falar com o major, mas sem resultado. Como o major era um pecador antigo, como última tentativa, a comadre e D. maria foram falar com o grande amor de Vidigal, a Maria-Regalada.
Lá chegando puseram a mulher a par de tudo e as três, na cadeirinha, puseram-se rumo à casa do major.
XLVI – As três em comissão - Lá chegando, o major recebeu-as de rodaque de chita e tamancos, mas quando reconheceu as três, correu o mais que pôde para pôr a farda. Na pressa retornou à sala de farda, calças de enfiar, tamancos e um lenço de alcobaça nos ombros.
As três mulheres, chorando em um único coro, pediam a soltura de Leonardo, mas o major estava irredutível, até que Maria-Regalada chamou-o a um canto da sala e cochichou-lhe algo. Pronto, tudo mudou, Leonardo seria solto.
XLVII – A morte é juiz - Nem bem chegou à casa, D. Maria, toda atrapalhada, teve que sair. José Manuel havia morrido.
Luisinha pôs-se a chorar, mas como choraria por qualquer vivente, porque tinha coração terno. Isso bastou para que uma vizinha dissesse a outra que não eram lágrimas de viúva.
A afirmação era correta, pois José Manuel nunca fora marido de Luisinha, senão por conveniência.
À saída do enterro, os escravos fizeram a maior algazarra.
Ao entardecer, para espanto de D. Maria, Leonardo dbentro na sala, estava livre das garras do major e ainda por cima, promovido a sargento.
Os olhos de Leonardo encontraram-se com os de Luisinha. Depois de conversarem com Leonardo estava de serviço, teve que se retirar.
XLVIII – Conclusão feliz - Luisinha e Leonardo haviam reatado o antigo namoro; namoro de viúva anda depressa.
Como sargento não podia se casar, foram a casa de Maria-Regala pedir ajuda e lá encontraram o major em rodaque e tamancos. Este era o segredo que Maria-Regalada havia lhe cochichado.
Após conversarem o major concordou em dar baixa ao Leonardo; de sargento de tropas, seria sargento de milícias.
Pouco tempo depois, Leonardo e Luisinha, casaram-se. Daí por diante, aconteceu o reverso da medalha: Leonardo Pataca devolveu os bens do filho, D. Maria e Leonardo Pataca morreram e mais uma enfiada de acontecimentos tristes que convém poupar e ponto final.
O único romance de Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um Sargento de Milícias, publicado em 1852-53 sob a forma de folhetins, difere em muitos aspectos dos romances comumente publicados em folhetins do século XIX, o que explica sua fraca popularidade na época, e sua melhor aceitação na posteridade. O romance tem esse título por narrar a história de Leonardo Pataca, um vadio que acaba se transformando num sargento de milícias no tempo de D. João VI. Memórias de Um Sargento de Milícias é uma obra que contrasta com os romances românticos de sua época e possui traços que anunciam a literatura modernista do século XX, por várias razões. Primeiro, por ter como protagonista um herói malandro (Leonardo é o primeiro malandro da literatura brasileira), ou um “anti-herói”, na opinião de alguns críticos. Segundo, pelo tipo especial de nacionalismo que a caracteriza, ao documentar traços específicos da sociedade brasileira do tempo do rei D. João VI, com seus costumes, os comportamentos e os tipos sociais de um estrato médio da sociedade, até então ignorado pela literatura. Terceiro, pelo tom de crônica que dá leveza e aproxima da fala sua linguagem direta, coloquial, irônica e próxima do estilo jornalístico.
O sentido profundo das "Memórias" está ligado ao fato de elas não se enquadrarem em nenhuma das racionalizações ideológicas reinantes na literatura brasileira de então: indianismo, nacionalismo, grandeza, sofrimento, redenção pela dor, pompa do estilo etc. Na sua estrutura mais íntima e na sua visão latente das coisas, elas exprimem a vasta acomodação geral que dissolve os extremos, tira o significado da lei e da ordem, manifesta a penetração recíproca dos grupos e das idéias, das atitudes mais díspares, criando uma espécie de terra-de-ninguém moral, onde a transgressão é apenas um matiz na gama que vem da norma e vai ao crime.
Novela de tom humorístico que faz crônica de costumes do Rio Colonial, na época de D. João VI. O romance reporta-se a uma fase em que se esboçava no país uma estrutura não mais puramente colonial, mas ainda longe do quadro industrial-burguês.
Não há idealização das personagens, mas observação direta e objetiva. Presença de camadas inferiores da população (barbeiros, comadres, parteiras, meirinhos, "saloias", designados pela ocupação que exercem). Os personagens não são heróis nem vilões, praticam o bem e o mal, impulsionados pelas necessidades de sobrevivência (a fome, a ascensão social).
Estrutura da obra
A novela está dividida em duas partes bem distintas: a primeira com 23 capítulos e a segunda com 25.
Os episódios são quase autônomos, só ligados pela presença de Leonardo, dando à obra uma estrutura mais de novela que de romance, como já ficou observado.
O leitor acompanha o crescimento do herói com sua infância rica em travessuras, a adolescência com as primeiras ilusões amorosas e aventuras, e o adulto, que, com o senso de responsabilidade, que essa idade exige, vai-se enquadrando na sociedade, o que culmina com o casamento.
Foco narrativo
Memórias de um Sargento de Milícias é romance narrado em terceira pessoa, sendo um narrador-observador quem conta a história. O cinismo bem-humorado, as sistemáticas interferências nas situações sempre divertidas que relata, as ironias e as brincadeiras envolvendo costumes e personagens da época constituem alguns traços marcantes deste narrador, cujo juízo crítico a respeito do que vai documentando algumas vezes revela-se de forma claramente debochada.
Além de romper com a tradicional postura idealizadora do narrador romântico, em relação aos indivíduos e também à terra, o narrador da obra ora suprime etapas narrativas, ora transita da terceira para a primeira pessoa. Assim, ele assume uma cumplicidade de caráter metalingüístico com o leitor, o que significa um anúncio de procedimentos modernistas, também percebido nas conversas com o leitor e nos comentários jocosos que faz à propósito do que conta.
Personagens
Leonardo: anti-herói, herói às avessas, herói picaresco - desde a infância é esperto, vagabundo e mulherengo, assemelha-se ao protagonista, Macunaíma.
Leonardo-Pataca: oficial de justiça, sentimental, sempre enroscado em suas paixões.
Maria-da-Hortaliça: mãe do herói
Major Vidigal: temido e respeitado por todos.Severo punidor, é, ao mesmo tempo, policial e juiz.
Comadre: protetora de Leonardo, vive tentando livrá-lo dos enroscos em que se metia.
Compadre Barbeiro: outro protetor. Cria o menino como se fosse o seu filho, sonhando um próspero futuro para ele; só que isso não acontece.
D. Maria: velha, rica e bondosa. Era apaixonada por causas judiciais. Tia e tutora de Luisinha, amiga da comadre e do compadre.
Luisinha: primeiro amor de Leonardo. Suas características fogem da idealização dos modelos românticos: era feia, pálida e desajeitada.
José Manuel: caça-dotes, representa uma crítica à burguesia.
Vidinha: cantora de modinas, segunda paixão de Leonardo.
Chiquinha: filha de D. Maria e esposa de Leonardo-Pataca.
Maria-Regalada: amante de Vidigal.
Além desses, há outros como: A vizinha, a cigana, o mestre-de-rezas, Tomás, etc.
Os personagens encaixam-se na categoria de tipos alegóricos, pois não possuem profundidade psicológica e são como caricatura de uma classe social: o povo, a classe média carioca da época.
Resumo
O narrador, baseando-se em uma história contada por um sargento de milícias aposentado, adota a postura de contador de histórias para narrar os costumes e acontecimentos de mais ou menos cinqüenta anos atrás. Logo, o narrador não viveu na época das estripulias de Leonardo.
I – Origem, nascimento e batismo - É a apresentação do protagonista Leonardo. O narrador, baseando-se na história que um sargento de milícias aposentado lhe contou, narra a vida e os costumes do Rio de Janeiro na época em que D. João VI esteve no Brasil, daí iniciar com: Era no tempo do rei. – volta a um passado não muito distante.
No Rio de Janeiro, na rua do Ouvidor, havia um local em que os meirinhos se reuniam, daí o nome o canto dos meirinhos, os meirinhos da época em que vivia o narrador, Segunda metade do século XIX, eram apenas uma sombra caricata daqueles do tempo do rei, gente temida e temível, respeitada e respeitável e a sua influência moral era a de formarem um dos opostos da cadeia judiciária; mas além da influência moral tinham também a influência que derivava de suas condições físicas, que é o que falta nos meirinhos de hoje (época em que vivia o narrador da obra), estes são homens como quaisquer outros, confundem-se com qualquer procurador, escrevente de cartório ou contínuo de repartição; já os da época do rei eram inconfundíveis tanto no semblante quanto no trajar: “sisuda casaca preta, calção e meias da mesma cor, sapato afivelado, ao lado esquerdo aristocrático espadachim, e na ilharga direita penduravam um círculo branco cuja significação ignoramos, e coroavam tudo isto por um grave chapéu armado. Nesta época ele podia usar e abusar da sua posição.
Após a comparação, o narrador chama o leitor para participar da narrativa, usando para isso, a primeira pessoa do plural: “Mas voltemos à esquina , à abençoada época do rei”, e lá apresenta-lhe a equação meirinhal; um grupo de meirinhos conversando sobre tudo que era lícito conversar: vida dos fidalgos, fatos policiais e astúcias do Vidigal. No grupo destacava-se Leonardo-Pataca, uma rotunda e gordíssima figura de cabelos brancos e carão avermelhado; era moleirão e pachorrento; como era moleirão, ninguém o procurava para negócios e ele nunca saía da esquina, passava os dias sentado, tendo a sua infalível companheira depois dos cinqüenta, a bengala. Como sempre se queixava dos 320 réis por citação, deram-lhe o apelido de Pataca.
Cansado de ser o Leonardo algibebe de Lisboa viera ao Brasil e não se sabe por proteção de quem havia alcançado o posto de meirinho. Ainda a bordo do navio, conhecera Maria da hortaliça, quitandeira das praças de Lisboa, saloia rechonchuda e bonitona. Eles se conheceram quando ela estava encostada à bordo do navio e ele, ao passar, fingiu-se de distraído e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo beliscão nas costas da mão esquerda.
De beliscões e pisadelas, tornaram-se amantes e quando saltaram em terra ela começou a sentir certos enojos. Os dois foram morar juntos e sete meses depois, manifestaram-se os efeitos da pisadela, nasceu o herói dessa história, um formidável menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão. Assim que nasceu, mamou duas horas seguidas, sem largar o peito.
Os padrinhos de batismo foram a madrinha parteira e o compadre barbeiro, foi uma festança; o compadre trouxe a rabeca e todos dançaram o fado e apesar da dificuldade em encontrar pares, o minueto; Leonardo queria uma festa refinada, mesmo com dificuldade em achar pares. Levantaram: uma mulher gorda, baixa e matrona, sua companheira, cuja figura era a mais completa antítese da sua, um colega do Leonardo, miudinho e pequenino, com ares de gaiato e o sacristão da Sé, alto e magro, com pretensões de elegante.
Enquanto compadre tocava o minueto na rabeca, o afilhadinho acompanhava cada arcada com um guincho e um esperneio, fazendo o compadre perder, várias vezes, o compasso.
Aos poucos o minueto foi desaparecendo e a coisa esquentou, chegaram os rapazes da viola e machete; logo, a coisa passou de burburinho para gritaria e algazarra, que só parou quando perceberam que o Vidigal estava por perto.
A festa acabou tarde. A madrinha foi a última a sair, mas antes colocou um raminho de arruda no pimpolho.
II – Primeiros infortúnios - O narrador, mais um vez, inclui o leitor na narrativa, chamando-o para pularem alguns anos desde o batizado do herói e irem encontrá-lo com sete anos, mas antes avisa que durante todo esse tempo o menino não desmentiu aquilo que já se anunciava, ou seja, desde o nascimento já atormentava: ainda bebê era o choro, mas assim que se pôs a andar era um flagelo, quebrava e rasgava tudo o que podia; o que mais gostava era do chapéu do pai e sempre que podia por-lhe as mãos, punha-lhe dentro tudo o que encontrava. Quando não traquinava, comia. Maria não lhe perdoava, tanto que o menino trazia uma região do corpo bem maltratada, mesmo assim ele não se emendava, era teimoso, suas travessuras recomeçavam mal acabava a dor das palmadas. Foi assim que o herói chegou aos sete anos.
Como a mãe, Maria, sempre fora saloia, o pai, Leonardo, suspeitava de que estava sendo traído, pois por diversas vezes viu um certo sargento se esgueirando e enfiando olhares curiosos janela adentro. Outras vezes estranhou que um certo colega sempre ia procurá-lo em casa; mas o mais grave foi, não só deparar-se várias com um certo capitão do navio de Lisboa junto de sua casa, como também, ao entrar em casa, vê-lo fugir pela janela. Não agüentou, cerrou os punhos e tremendo com todo o corpo, gritou: — Grandessíssima!..., em seguida, saltou sobre Maria. Ela saltou para trás, pôs-se em guarda e sem temer advertiu-o: — Tira-te lá, ó Leonardo!
Como a sua resistência, frente ao ódio de Leonardo, era inútil, começou a correr e pedir socorro ao compadre Barbeiro que ocupado, ensaboando a cara de um freguês, nada pôde fazer e ela, como única opção, encolheu-se em um canto.
O menino, no maior sangue-frio, enquanto rasgava as folhas dos autos que o pai havia largado ao entrar, assistia à mãe que apanhava.
Quando o pai estava se acalmando, viu a obra do filho e tornou a se enfurecer: suspendeu o filho pelas orelhas, fazendo-o dar meia volta; em seguida ergueu o pé direito e dizendo que o menino era filho de uma pisadela e de um beliscão, assentou-lhe em cheio sobre os glúteos, atirando-o a quatro braças de distância.
O menino ergueu-se rapidamente e em três pulos estava dentro da loja do padrinho; nem bem havia entrado, esbarrou na bacia de água com sabão que estava nas mãos do padrinho e acabou batizando o freguês com toda aquela água.
O afilhado apontou o problema e o padrinho, após desculpar-se com o freguês, resmungou: — Ham! resmungou; já sei o que há de ser... eu bem dizia... ora ai está!... e foi acudir o que acontecia.
Por estas palavras vê-se que ele suspeitara alguma coisa; e saiba o leitor que suspeitara a verdade. - Não se pode deixar de perceber nesse fragmento que o narrador conversa com o leitor, chamando-o para a narrativa.
O compadre já sabia o que estava acontecendo pois era comum, na época, espionar a vida alheia, logo, conhecia todas as visitas da comadre.
O barbeiro entrou na casa do compadre Leonardo e ao perguntar-lhe se havia perdido o juízo, ele respondeu-lhe Ter perdido a honra. Maria apareceu e sentindo-se protegida pelo compadre, pôs-se a zombar e a xingar toda a classe masculina; assim que acalmou o segundo “round” de murros, enquanto ela chorava em um canto, Leonardo, com olhos e bochechas vermelhas, juntou os papéis rasgados, a bengala e o chapéu e saiu batendo a porta. Era de manhã.
À tarde quando o compadre retornou à casa, decidido fazer as pazes com Maria, ela não estava mais lá, havia fugido com o capitão do navio de Lisboa.
Leonardo saiu sem falar nada e o pequeno ficou com o Compadre Barbeiro.
III – Despedidas às travessuras - O pequeno, enquanto se achava novato na casa do padrinho, portou-se com sisudez e seriedade, mas assim que foi se familiarizando com o novo ambiente, começou a pôr as manguinhas de fora; mesmo assim, o padrinho estava cego de afeição pelo menino, tanto que por pior que fosse a travessura do garoto ou mal-criação, ele achava graça dizendo serem atitudes ingênuas.
A atitude do homem era natural, visto que ele já tinha 50 e tantos anos, nunca tinha tido afeições; passara sempre só, isolado; era verdadeiro partidário do mais decidido celibato. Logo à primeira afeição que fora levado a contrair sua alma expandiu-se toda inteira, e seu amor pelo pequeno subiu ao grau de rematada cegueira.
Este, aproveitando-se da imunidade em que se achava por tal motivo, fazia tudo quanto lhe vinha à cabeça.
O menino era de fato endiabrado: várias vezes sentado na loja divertia-se em fazer caretas aos fregueses quando estes se estavam barbeando. Uns riam e outros se enfureciam, do que resultava que saíam muitas vezes com a cara cortada, com grande prazer do menino e descrédito do padrinho. Outras vezes escondia em algum canto a mais afiada navalha do padrinho, e o freguês levava por muito tempo com a cara cheia de sabão mordendo-se de impaciência enquanto este a procurava; ele ria-se furtiva e malignamente. Em casa, nada ficava inteiro por muito; pelos quintais atirava pedras aos telhados dos vizinhos; sentado à porta da rua, entendia com quem passava e com quem estava pelas janelas, de maneira que ninguém por ali gostava dele. O padrinho porém não se dava disto, e continuava a querer-lhe sempre muito bem. Desempenhando o papel de pai, passava às vezes, as noites fazendo castelos no ar a seu respeito; sonhava-lhe uma grande fortuna e uma elevada posição, e tratava de estudar os meios que o levassem a esse fim. Queria o melhor para o menino, já que havia se arranjado na vida, pensava até em enviá-lo para Coimbra, (como um babeiro havia se arranjado na vida e conseguido dinheiro para isso, segundo o narrador, é assunto para outra história). Segundo o barbeiro, a melhor profissão para o menino seria a de clérigo.
Após ruminar por muito tempo essa idéia, certa manhã, uma Quarta-feira, chamou o pequeno, então com 9 anos, e disse-lhe que deveria se fartar de travessuras até o resto da semana, dali em diante, só aos domingos, após a missa. O pequeno levou a fala do padrinho ao pé da letra e achou que era uma licença ampla para fazer tudo o que quisesse, fosse bem ou mal.
Ao anoitecer, sentado à porta, o padrinho viu de longe um acompanhamento alumiado pela luz de lanternas e tochas e ouviu padres rezarem. Era a via sacra do Bom Jesus.
O menino quando viu aquilo, estremecendo de alegria, lembrou se da fala do padrinho, “fartar-se de travessuras”; não perdeu tempo: misturou-se com a multidão, e lá foi concorrendo com suas gargalhadas e seus gritos para aumentar a vozeria. Com um prazer febril pulava, cantava, gritava, rezava e saltava, era um prazer febril; só não fez o que não tinha forças. Para ajudar ainda mais ass estripulias, juntou-se com mais dois moleques e as estripulias foram tantas, que quando deu por si a via-sacra já havia retornado à igreja do Bom Jesus.
IV – A fortuna - Enquanto o compadre, procura o afilhado por toda a parte, o narrador, ao convidar o leitor para ver o que era feito do Leonardo, acaba chegando nas bandas do mangue da Cidade Nova, em uma casa coberta de palha da mais feia aparência, possuía dois cômodos e a mobília compunha-se de dois ou três assentos de paus, algumas esteiras, uma caixa enorme de pau que servia para várias coisas: mesa de jantar, cama, guarda-roupa e prateleira. Quem morava nessa tapera não era o Leonardo, mas sim um feiticeiro, um caboclo velho, que conforme crença da época, tinha por ofício dar fortuna. Não era só a gente do povo que acreditava, mas também muita gente da alta sociedade o procurava para comprar a felicidade pelo cômodo preço da prática de alguma imoralidades e superstições.
Dentre a gente do povo que o procurava em busca de fortuna, temos o Leonardo Pataca por causa das contrariedades que sofria com um novo amor. Era uma cigana que Leonardo conhecera logo após a fuga de Maria, isso porque ele era romântico - termo que na época do narrador significa babão, já na época de Leonardo Pataca significava que ele não podia passar sem uma paixãozinha. Como a sua profissão rendia não lhe era difícil conquistar a posse do adorado, mas a fidelidade, a unidade no gozo, que era o que sua alma aspirava, isso não conseguira pois a cigana era tão saloia quanto Maria - da - Hortaliça, esta fugira com outro com a desculpa de saudades da pátria, mas a outra não eram saudades, o que fez Leonardo buscar meios sobrenaturais para consegui-la de volta, já que os meios humanos movidos por súplicas não funcionaram.
O seu desespero era tamanho que se entregou de corpo e alma ao caboclo da casa do mangue, além de contribuir com dinheiro, já ter sofrido fumigações de ervas sufocantes, tragar bebidas enjoativas; decorar milhares de orações misteriosas, que era obrigado a repetir muitas vezes por dia; tinha também que depositar quase todas as noites em lugares determinados quantias e objetos com o fim de chamar em auxílio, dizia o caboclo, as suas divindades; apesar de tudo isso a cigana resistia ao sortilégio. A última prova para a reconquista foi marcada para a meia-noite; à hora marcada Leonardo encontrou à porta, o nojento nigromante que não permitiu que ele entrasse vestido, obrigou-o a trajar-se à moda de Adão no paraíso e após cobri-lo com um manto imundo, abriu-lhe a entrada.
Lá dentro, após ajoelhar-se e rezar em todos os cantos da casa, Leonardo aproximou-se da fogueira, quatro figuras saíram do quarto e foram juntar-se a eles e todos dançavam sinistramente ao redor da fogueira quando de repente bateram levemente a porta e pediram para abri-la, isto fez com que todos de dentro se sobressaltassem: era o major Vidigal.
V – O vidigal - Nessa época ainda não estava organizada a polícia da cidade, portanto o major era rei absoluto, era o árbitro supremo de tudo que dizia respeito a esse ramo de administração; era o juiz que julgava e distribuía a pena, e ao mesmo tempo o guarda que dava caça aos criminosos; nas causas da sua imensa alçada não havia testemunhas, nem provas, nem razões, nem processo; ele resumia tudo em si; a sua justiça era infalível; não havia apelação das sentenças que dava, fazia o que queria, e ninguém lhe tomava contas.
Exercia enfim uma espécie de inquirição policial. Entretanto, frente aos costumes e acontecimentos da época, ele não abusava muito de seu poder, e o empregava em certos casos muito bem empregado. Era um homem alto, não muito gordo, com ares de moleirão; tinha o olhar sempre baixo, os movimentos lentos, e voz descansada e adocicada. Apesar deste aspecto de mansidão, não se encontraria por certo homem mais apto para o seu cargo inquisidor.
O major Vidigal juntamente com uma companhia de soldados escolhido por ele rondavam a cidade a noite e a sua polícia durante o dia. Não havia um lugar em que a sagacidade do major não caçasse vagabundos.
Ele espalhava terror.
O som daquela voz que dissera “abra a porta” gerava medo nos integrantes da sala, era o prenúncio de um grande aperto, com certeza não conseguiriam escapar. Mesmo assim, o grupo pôs-se em debandada, tentaram sair pelos fundos, mas a casa estava cercada e todos foram pegos em flagrante delito de nigromancia.
O major por sua vez, já dentro da casa, pediu-lhes que continuassem com a cerimônia pois queria ver como era. Resistir era inútil, então, após hesitarem, recomeçaram ritual. Já fazia meia hora que dançavam andando ajoelhados, mas sempre que paravam o major pedia para continuarem. Muito tempo depois pararam, mas o major pediu-lhes para continuarem. Não agüentavam mais, mas o major pedia para continuarem. Muito, mas muito tempo depois, quando já se arrastavam, o major ordenou-lhes que parassem e pediu aos granadeiros para tocarem, o que fez os soldados arrancarem as chibatas e o grupo feiticeiro dançar muito mais.
Depois de reger a música para a frenética dança, o major Vidigal começou o interrogatório. Perguntou a ocupação de um por um e nada ouviu, até que chegou a vez do Leonardo Pataca, reconheceu-o e quando o pobre homem explicou-lhe o motivo de tudo aquilo, o major prontificou-se a curá-lo e arrastou-o para a casa da guarda no largo da Sé, era uma espécie de depósito que guardava os que haviam sido presos durante a noite até dar-lhes um destino.
Ao amanhecer, toda a cidade já sabia do ocorrido e Leonardo foi mandado para a cadeia o que fez os companheiros mostrarem-se sentidos, a princípio, para logo depois gostarem pois enquanto o colega estava preso eles seriam procurados para os negócios, era um concorrente a menos.
VI – Primeira noite fora de casa - Assim que deu por falta do afilhado, o compadre, todo aflito, pôs-se a procurar pela vizinhança, mas ninguém tinha notícias do menino. Lembrou-se então da via-sacra e pôs se a percorrer as ruas. Indagando, aflitoa, a todos que encontrava pela rua, o paradeiro do seu tesouro. Quando chegou ao Bom-Jesus, informaram-lhe terem visto três endiabrados que foram expulsos da igreja pelo . Essa era a única pista que tinha.
Retornou a sua casa e ao indagar novamente a vizinha, exasperou-se quando esta lhe respondeu que o menino tinha maus bofes e que a história não teria um bom final.
O pobre homem passou a noite em claro e decidiu, antes de pedir ajuda ao Vidigal, esperar mais um dia.
Enquanto o compadre dá esse prazo, o narrador conduz o leitor ao paradeiro do menino.
Junto com os emigrados de Portugal, veio também para o Brasil, a praga dos ciganos, gente ociosa e sem escrúpulos, tão velhacos que quem tivesse juízo não se me tia com eles em negócios; quanto a poesia de seus costumes e crenças, deixaram do outro lado do oceano, trazendo para cá, apenas os maus hábitos. Viviam quase na ociosidade, não tinham noite sem festa. Moravam ordinariamente nas ruas populares e viviam em plena liberdade.
Os dois meninos, com quem o pequeno fizera amizade, eram de uma família dessa gente e acostumados à vida à toa, conheciam toda a cidade, percorriam-na sós. Após se conhecerem na via-sacra, carregaram o pequeno para a casa dos pais. Pelo caminho o menino ainda teve escrúpulos de voltar mas decidiu seguir os dois e ir até onde iriam. Lá , como era de se esperar, havia uma festa para o santo de sua devoção.
Daí a pouco começou o fado e o menino, esquecido de tudo pelo prazer, assistiu a tudo enquanto pôde; mas ao chegar o sono, reuniu-se com os companheiros em um canto e adormeceram, embalados pela música e sapateado.
Acordou sobressaltado e pediu aos companheiros que o levasse para casa.
Quando o padrinho ia recomeçar a busca, esbarrou no afilhado e ao interrogá-lo, ele respondeu que como queria que ele fosse padre, tinha ido ver um oratório.
O padrinho, não resistiu à ingenuidade do afilhado e sorrindo levou-o para dentro.
VII – A comadre - Vale agora falar um pouco de uma personagem que desempenhará um importante papel ao longo da história: é a comadre, a parteira e madrinha do memorando.
Era uma mulher baixa, gorda, bonachona, ingênua ou tola até certo ponto, e fina até outro. Vivia do ofício de parteira e de benzedeira. Era conhecida como beata e papa-missas.
O seu traje habitual era como já se esperava, igual ao de todas as mulheres da sua condição e esfera, uma saia de lila preta, que se vestia sobre um vestido qualquer, um lenço branco muito teso e engomado ao pescoço, outro na cabeça, um rosário pendurado no cós da saia, um raminho de arruda atrás da orelha, tudo isto coberto por uma clássica mantilha, junto à renda da qual se pregava uma pequena figa de ouro ou de osso.
O uso da mantilha era um arremedo espanhol e segundo o narrador era uma coisa poética pois revestia as mulheres de um certo mistério, realçava lhes a beleza, mas a mantilha das mulheres brasileiras era muito mais prosaico do que se podia imaginar, principalmente usadas por gordas e baixas. As mantilhas usadas nas brilhantes festas religiosas, nem se fala, pois a igreja tomava um ar lúgubre ao se encher daqueles vultos negros que se uniam e cochichavam a cada momento.
Apesar de tudo, a mantilha era o traje mais conveniente da época, posto que as ações dos outros era o principal cuidado de quase todos, era necessário ver sem ser visto. Funcionava como um observatório da vida alheia.
O fato de ser parteira, beata e curandeira, tomava-lhe muito tempo, tanto que fazia tempo que não via nem sabia nada do compadre, Leonardo, Maria e do afilhado, até que um dia na Sé, ouviu as beatas comentarem sobre Maria Ter apanhado de Leonardo, ter fugido com um capitão e o filho, um mal-educado, ter ficado com o barbeiro.
Ao ouvir a história, pôs-se rumo à casa do barbeiro, lá chegando questionou o fardo deixado para o homem carregar. Após Ter respondido ao interrogatório da comadre, pôs-se a defender o pequeno, dizendo ser sossegadinho, gentil e ter intenções de ser padre.
A comadre não concordou como compadre e retirou-se.
A partir desse dia, a comadre sempre aparecia na casa do compadre.
O padrinho, não desistindo de seus sonhos, pôs se a ensinar o ABC ao afilhado, que empacava no F.
Após apresentar a comadre, o narrador volta a informar o paradeiro de Leonardo.
VIII – O pátio dos bichos - No palácio del-rei, conhecido nos tempos do narrador como paço imperial, existia no saguão, uma saleta, conhecida com salão dos bichos, apelido dado em conseqüência de seu uso: Diariamente, passavam por ele três ou quatro oficiais superiores velhos, incapazes para a guerra e inúteis para a paz, eram pouco usados pelo rei, logo passavam ociosos a maior parte do tempo. Dentre eles, destaca-se um português, era tenente-coronel. A sua importância na história e que foi ele quem a comadre procurou para pedir a libertação de Leonardo.
Após ouvi-la, o velho colocou o chapéu armado, pôs a espada à cinta e saiu. Em breve, saber-se-á do resultado.
IX – O arranjei-me do compadre - Aqui, o narrador revelará alguns fatos da vida do compadre, até agora desconhecidos: o compadre nada sabia de seus pais ou parentes e quando jovem, achou-se na casa de um barbeiro, não sabia se estava lá como filho ou agregado; não só cuidava do barbeiro como também herdara dele a profissão.
Já adolescente, sabia barbear e sangrar sofrivelmente e como jamais conseguiria se manter com essa profissão, visto que o sucesso e fregueses cabiam ao seu mestre, saiu sem rumo. Como todo barbeiro é tagarela, conheceu um marujo que acabou colocando-o a bordo, como barbeiro e sangrador.
A bordo, ganhou fama quando sangrou e curou dois marujos doentes e com sua lanceta não deixou nenhum negro do carregamento morrer.
Poucos dias antes de chegar ao Rio, o capitão do navio adoeceu e nem com a Quarta sangria ele melhorou. Havia chegado a hora do capitão, não havia sangria que o salvasse. Moribundo e em segredo, o capitão, que confiava no barbeiro, entregou-lhe uma caixa, deu lhe o endereço e pediu-lhe que entregasse a sua filha, em seguida disse que espiaria a sua tarefa lá do outro mundo. Pouco tempo depois, o capitão morreu. A partir daí, o barbeiro já não sangrava mais como antes e decidiu não embarcar mais. Quanto a história do capitão, sequer havia testemunhas então, o compadre instituiu-se como herdeiro do capitão. Foi assim que ele se arranjou na vida.
X – Explicações - O velho tenente-coronel, apesar de virtuoso, bom e de estar numa idade inofensiva, tinha um sofrível par de pecados da carne, tanto que aos 36 anos havia deixado em Lisboa, um filho. Aos 20 anos era um cadete desordeiro, jogador e insubordinado. Deixava o pai, um homem de respeito, desesperado.
Poucos dias antes de embarcar para o Brasil, em companhia de el-rei, o infeliz pai foi procurado por uma mulher velha, baixa, gorda e vermelha, vestida, segundo o costume das mulheres da mais baixa classe do seu país: um vestido de chita e um lenço branco, triangular sobre a cabeça e preso embaixo do queixo. Estava nervosa e agitada, seus lábios franzinos e franzidos estavam apertados um contra o outro, como se segurassem uma torrente de injúrias. Assim que chegou em frente ao capitão, era esse o posto do velho tenente-coronel na época, olhou-o com ar resoluto e enfurecido, fazendo-o, instintivamente, dar um passo atrás.
Ela, colocando as mãos nas cadeiras e chegando a boca bem perto do rosto do capitão, logo já se pôde deduzir: o problema era com o filho do capitão que pôs-se a namorar Mariazinha, filha da velha nervosa. Segundo a mulher, foi namoro pra lá, namoro pra cá e... brás!..
O capitão foi às nuvens. A mulher ainda afirmou que o rapaz havia prometido casamento a filha.
Após pensar um segundo, viu que não poderia deixar o filho casar-se com a filha de uma colareja e além do mais, o que ele ganhava como cadete não era suficiente para o rapaz sustentar uma família. Então, o capitão disse a mulher que pensaria no caso.
O capitão, em apuros, procurou a mulher e ofereceu alguma coisa para que ela se calasse e não estourasse.
Não deu para ele pensar muito no assunto pois havia chegado a hora. Então, deixando o filho aos cuidados de conhecidos, partiu.
Já no Brasil, anos depois, soube que a tal Mariazinha estava no Rio de Janeiro, em companhia de Leonardo. Era a Mariazinha, a famosa Maria-da-Hortaliça.
Sabe-se agora o porquê de o velho tenente-coronel prometer ajudar Leonardo: acontece que o velho, procurando satisfazer o seu escrúpulo de pai honrado, fazia o que podia pela moça que seu filho havia desonrado. Em segredo havia feito um trato com a comadre, ou seja qualquer necessidade que Maria-da-hortaliça sofresse, ele supriria, bastaria que a comadre o informasse.
Como a comadre o ajudava, ele deveria ajudá-la, é essa troca de favores que fê-lo, assim que falou com a comadre, dirigir-se à cadeia e após ouvir a história vinda da boca de Leonardo, dirigiu-se à casa de um amigo, um fidalgo.
Em poucas palavras o tenente-coronel pôs-lhe a par de tudo e o fidalgo prometeu ajudar.
O velho tenente-coronel, satisfeitíssimo pôs-se rumo à cadeia a fim de contar a novidade a Leonardo.
XI – Progresso e atraso - Após todas essas explicações , apresentações e origem dos personagens, o narrador volta a se concentrar no memorando, ou seja em Leonardo, afilhado do barbeiro, pois a última vez que fora mencionado estava encalhado no F e agora já está no P, de novo empacado, mas o progresso do menino havia deixado o padrinho muito contente. O difícil era fazê-lo decorar o padre-nosso, em vez de dizer “venha a nós o vosso reino”, ele dizia : “venha a nós o pão nosso”. O maior suplício para o menino era ir à missa ou ao sermão.
Mesmo assim, enquanto todos viam em Leonardo um grande peralta, principalmente a vizinha, o padrinho não perdia as esperanças de vê-lo um clérigo.
Era a tal vizinha uma dessas mulheres que se chamam de faca e calhau, valentona, presunçosa, e que se gabava de não ter papas na língua: era viúva, e importunava a todo o mundo com as virtudes do seu defunto. Ela não perdia tempo em desmentir o vizinho em suas esperanças a respeito do afilhado.
Certo dia, o barbeiro não suportou mais, pois certo dia, ao chegar a loja, a vizinha, à janela, perguntou-lhe, em zombaria, onde estava o seu reverendo.
O barbeiro, vermelho, foi às nuvens e quando ela perguntou se o menino já sabia o padre-nosso, o homem não agüentou e exasperando-se respondeu-lhe que o menino já sabia e que ele o fazia rezar todas as noites para seu marido que estava dando coices no inferno.
A mulher retrucou e chamou-o de raspa-barbas.
A discussão foi longe.
Quando o compadre perguntou a mulher o porquê de ele implicar tanto com uma criança que nunca havia lhe feito mal, ela respondeu que ele vivia jogando pedras no telhado, fazia-lhe caretas e a tratava como se fosse uma saloia ou mulher de barbeiro.
O menino ao ouvir tanto estardalhaço, pôs-se a porta e começou a arremedá-la. O compadre achou tanta graça que sentiu-se vingado e desatou a rir.
Enquanto a discussão termina, o narrador aproveita para informar que o barbeiro sabia da prisão de Leonardo mas não se importava.
Assim que o velho tenente-coronel colocou Leonardo na rua, decidiu tomar Leonardo para a sua proteção, acreditando que se conseguisse felicitá-lo, lavaria o seu filho do pecado; tanto que pediu à comadre que oferecesse ao compadre seu préstimo para o pequeno, chegou a pedir que o deixasse ir para a sua companhia.
O compadre recusou e disse que era a sua função, para tampar a boca da vizinhança, transformar o menino em gente.
XII – Entrada para a escola - Para evitar repetir a história das mil travessuras do menino, que exasperaram a vizinhança e desgostaram a comadre sem reduzir a amizade do barbeiro pelo afilhado, o melhor e informar que os progressos do menino agradavam o padrinho, pois o pequeno já lia, sofrivelmente e aprendera a ajudar na missa.
Preocupado com o futuro da criança foi procurar um mestre, Era este um homem todo em proporções infinitesimais, baixinho, magrinho, de carinha estreita chupada, excessivamente calvo; usava de óculos, tinha pretensões de latinista, e dava bolos nos discípulos por dá cá aquela palha. Era um dos mais acreditados na cidade. O barbeiro entrou acompanhado do afilhado. Era Sábado, os bancos estavam cheios de crianças; os dois entraram exatamente na hora da tabuada cantada, uma espécie de ladainha de números, era monótono e insuportável, mas os meninos gostavam.
As vozes dos meninos, acompanhadas pelos passarinhos nas gaiolas, faziam uma algazarra de doer os ouvidos.
Na Segunda-feira, lá estava o menino, munido de sua pasta a tiracolo, a sua lousa e o seu tinteiro de chifre. Logo no primeiro dia levou quatro bolos o que o fez declarar guerra viva à escola.
Na saída, assim que viu o padrinho, disse-lhe que não voltaria mais à escola, não queria ter que apanhar para aprender.
O barbeiro ficou contrariado temendo que a maldita vizinha soubesse que o menino havia apanhado no primeiro dia de escola, mas o pequeno só concordou em retornar caso o padrinho falasse ao mestre para não lhe bater mais. O padrinho, a fim de persuadi-lo, concordou.
O menino entrou na escola desesperado e como não ficasse quieto ou calado, foi colocado de joelhos e nessa posição foi surpreendido atirando uma bolinha de papel nos colegas; resultado: doze bolos, o que fez o menino despejar sobre o mestre, todas as injúrias que sabia.
Segundo o barbeiro, os dezesseis bolos do primeiro dia deviam-se a praga que a vizinha deveria ter jogado, mas ele venceria.
XIII – Mudança de vida - Foi com muito sacrifício que o compadre conseguiu fazer o menino freqüentar a escola por dois anos, levando bolos todos os dias. Apesar de o mestre sustentar a fama de cruel, na verdade os bolos eram merecidos pois o menino era da mais refinada má-criação, sempre desobedecia a tudo que lhe era ordenado.
Não parava quieto.
Nunca uma pasta, um tinteiro, uma lousa lhe durou mais de 15 dias, era um velhaco que vendia aos colegas tudo o que podia Ter algum valor, empregando o dinheiro que conseguia, do pior modo que podia.
No quinto dia de escola disse ao padrinho que já sabia ir sozinho, este acreditou e o afilhado, então somou mais um apelido ao de apanha-bolos-mor, era o de gazeta-mor.
O lugar que mais ficava quando cabulava aulas era a igreja da Sé, pois reunia-se gente e várias mulheres com mantilha, de quem tomara certa zanguinha por causa da madrinha. Lá, no meio da multidão, não o encontrariam se o procurassem.
Como não saía da igreja, fez amizade com um pequeno sacristão tão peralta quanto ele, conseguiam se comunicar apenas com troca de olhares.
Essa vida durou muito tempo, até que o padrinho voltou a acompanhá-lo. O menino decidiu que seria muito agradável acompanhar o colega sacristão, afogando em ondas de fumaça a cara da velha que chegasse mais perto e para isso comunicou ao compadre o seu desejo de freqüentar a igreja, tinha nascido para aquilo. Para o padrinho, foi a maior alegria quando ouviu o menino pedir que lhe fizesse sacristão.
Em poucos dias aprontou-se, e em uma bela manhã saiu de casa vestido com a competente batina e sobrepeliz, e foi tomar posse do emprego. Ao vê-lo passar a vizinha dos maus agouros soltou uma exclamação de surpresa a princípio, supondo alguma asneira do compadre; porém reparando, compreendeu o que era, e desatou uma gargalhada e ao chamá-lo de Sr. Cura, o menino respondeu-lhe que seria e haveria de curá-la.
Era aquilo uma promessa de vingança.
O menino chegou à Sé impando de contente, a batina era como um manto real e foi na maior seriedade que entrou na função de sacristão. Já no dia seguinte, o negócio era outro: durante a missa cantada ele ficou com a tocha e o amigo, com o turíbulo, quando de repente, para infelicidade da vizinha, a quem o menino prometera curar, sem pensar, colocou-se junto aos dois e bastou uma troca de olhar para se colocarem em distância e lugar conveniente: enquanto um, tendo enchido o turíbulo de incenso, e balançando-o convenientemente, fazia com que os rolos de fumaça que se desprendiam fossem bater de cheio na cara da pobre mulher, o outro com a tocha despejava-lhe sobre as costas da
mantilha a cada passo plastradas de cera derretida, a mulher ao exasperar-se ouviu o menino dizer que estava lhe curando. Como a igreja estava apinhada de gente, ela teve que suportar o suplício até o fim. terminada a missa queixou-se ao mestre-de-cerimônias e os dois ganharam uma tremenda sarabanda.
XIV – Nova vingança e seu resultado - Apesar de os meninos não se importarem com a sarabanda, não perdoaram o mestre-de-cerimônias por tê-los humilhado em frente da vítima e resolveram desforrar e foi o caso assim: o pobre homem era um padre de meia idade formado em Coimbra na mais austeridade da igreja católica, poderia fornecer a Bocage assunto para um poema inteiro; pois apesar de, aparentemente, buscar por assunto a honestidade e a pureza corporal, a sua essência era sensual, fato que muitos ignoravam, mas os dois pequenos estavam por dentro de tudo, tanto que sabiam que o padre enviava recados e objetos a uma cigana, a mesma de Leonardo Pataca.
Já fazia três ou quatro dias que o padre não saía por estar decorando o sermão, um sacristão foi incumbido de lhe avisar quando chegasse a hora e os meninos não perderam tempo, o pequeno dirigiu-se à casa e após bater, perguntou, em voz alta, pelo sacristão.
A cigana mandou-o entrar e ele em vez de dizer nove, disse dez horas.
No dia seguinte, às nove em ponto, começou a festa e nada do pregador aparecer, o que fez um capuccino italiano, por bondade, oferecer-se para improvisar o sermão, já havia começado quando o mestre entrou e ambos começaram a disputar o púlpito. Assim que terminou, o mestre-de-cerimônias dirigiu-se ao menino que defendeu-se dizendo que a cigana com quem ele estava era testemunha de que ele havia dito que o sermão seria às nove. O Oh! Que soltaram foi geral, mas o homem desmentiu.
Terminada a festa despediu o menino que nem se importou.
XV – Estralada - Quando Leonardo já havia se esquecido da cigana, descobriu que ela era amante do mestre-de-cerimônias e resolveu procurá-la para salvar sua alma, mas ela disse ter sido procurada por vários meirinhos mas nenhum havia lhe agradado. Então, após ter desejado uma estralada para a mulher, retirou-se jurando vingança.
Dito e feito, contratou Chico-Juca que ganhava para dar pancada e o dia de colocá-lo em ação seria no aniversário da cigana. Após acertar tudo com o brigão, procurou o major Vidigal para falar sobre a festa. O plano deu tão certo que quando os soldados do Vidigal foram revistar o quarto, tiraram de lá, nada menos que o mestre-de-cerimônias em ceroulas, meias pretas e sapatos afivelados. Sem perdão, o padre foi para a casa da guarda.
XVI – Sucesso do plano - O mestre-de-cerimônias não chegou ao xilindró, pois o Vidigal quis apenas dar-lhe um susto. Como era de se esperar, a notícia correu rapidamente e logo depois, todo envergonhado, ele seguiu para casa.
Enfim, Leonardo e a cigana reataram o romance, para desgosto da comadre que tentava enfiar-lhe a sobrinha.
Já o ex-sacristão, para desgosto do compadre, ainda estava com o seu destino incerto.
XVII – D. Maria - Num dia de procissão, o barbeiro, o afilhado, a comadre e a vizinha dos maus agouros estavam hospedados na casa de D. Maria, uma mulher muito velha e muito gorda, era rica, religiosa e caridosa.
Lá, o menino ouviu a vizinha falando dele para a madrinha e como vingança, pisou na barra da saia da mulher que ao se levantar, rasgou em quatro palmos; a única atitude do barbeiro foi rir.
Ali, todos discutiam o destino do menino e ao saírem, D. Maria pediu ao compadre que voltassem para falarem sobre o menino.
XVIII – Amores - Alguns anos depois, o menino tornou-se um vadio-mestre, vadio-tipo, levando o padrinho ao mais
completo desespero.
A comadre conseguiu o que queria, Leonardo Pataca havia se arranjado com a sobrinha.
D. Maria havia envelhecido sofrivelmente e era, na época, tutora de sua sobrinha que estava órfã.
As demais personagens continuam do mesmo jeito.
O memorando, agora adolescente, passou a ser tratado pelo nome, o mesmo do pai, Leonardo. O jovem estava apaixonado por Luisinha, a sobrinha de D. Maria.
Quando Leonardo a viu pela primeira vez, não conteve o riso: era já muito desenvolvida, porém ainda não tinha adquirido a beleza de moça: era alta, magra, pálida: andava com o queixo enterrado no peito, trazia as pálpebras sempre baixas, e olhava a furto; tinha os braços finos e compridos; o cabelo, cortado, dava-lhe apenas até o pescoço, e como andava mal penteada e trazia a cabeça sempre baixa, uma grande porção lhe caía sobre a testa e olhos, como uma viseira.
Mesmo tendo rido de Luisinha, quando o padrinho anunciou a nova visita à D. Maria, o jovem pulou de alegria, foi o primeiro a ficar pronto e lá foram os dois para o seu destino.
XIX – Domingo do Espírito Santo - Como era Domingo de Espírito Santo, ao chegarem a casa de D. Maria, encontraram todos à janela.
Desta vez, ao ver a moça de branco e com os cabelos, penteados, não conseguiu rir, mas sim apreciar a figura da moça. Ela, por sua vez, continuava em seu inalterável silêncio e concentração.
Mais tarde, os quatro iriam ver os fogos.
XX – O fogo no campo - Luisinha estava atônita no meio de todo aquele movimento, mas Leonardo a puxava pelo braço.
Para deleite de Leonardo, após a queima de fogos, os dois voltaram de mãos dadas.
XXI – Contrariedades - Como aqui se faz e aqui se paga, chegou a hora de Leonardo pagar os seus tributos: o rapaz estava amando Luisinha, cujo comportamento voltara ao antigo estado de letargia, fato que fez o jovem sofrer grande contrariedade e fingindo desprezo que era despeito, murmurou um - que me importa!
A situação mudou só mudou de figura quando o padrinho e o afilhado depararam com um desconhecido na casa de D. Maria. Era um homenzinho de mais ou menos trinta e cinco anos, magro, narigudo e de olhar penetrante, recém chegado da Bahia; era o Sr. José Manuel. Quem olhasse para a sua cara via logo que pertencia à família dos velhacos. Era uma crônica viva e escandalosa, sempre que podia desfiava um discurso de duas horas sobre a vida alheia. Padrinho e afilhado, nutriam pelo homenzinho, desde a primeira vez que o viram, uma grande antipatia.
O pedantismo com que José Manuel tratava as duas era por um motivo muito simples: Luisinha era a única herdeira de D. Maria, assim, quem se casasse com a moça, daria-se bem.
XXII – Aliança - A presença de José Manuel desagradava aos dois homens, e ele já havia percebido que os dois não gostavam dele. Leonardo amava Luisinha e o padrinho via na moça um excelente meio de vida para o rapaz.
Tamanha era a preocupação do compadre que ele foi falar com a comadre que ficou de falar com D. Maria. Foi assim que se formou uma aliança entre o compadre e a comadre para derrotarem o concorrente de Luisinha.
XXIII – Declaração - Enquanto a comadre tecia planos para derrotar o rival do afilhado, este ardia em ciúmes. Para a sua sorte, Luisinha ignorava tudo e continuava indiferente.
Leonardo, por sua vez, temendo que o compadre e a comadre derrotassem seu rival e ele não pudesse entrar em combate, tentou agir por conta, mas cada vez que ficava a sós com Luisinha, dava-lhe um tremor de pernas que mal conseguia ficar de pé ou articular qualquer palavra. Certa ocasião, a moça estava em pé, perto da janela e ele se aproximou ficando como a uma estátua atrás dela, quando ela se virou, a única reação do rapaz foi a de fazer uma careta; por fim criou coragem e disse-lhe que a queria muito bem; esta por sua vez, ficou cor de cereja e desapareceu pelo corredor.
XXIV – A comadre me exercício - Leonardo-Pataca estava todo feliz, pois do seu relacionamento com Chiquinha, a sobrinha da comadre, nasceu uma pequerrucha, oposta ao irmão, pois era mansa e risonha.
XXV – Trama - Quando a comadre não estava ocupada fazendo partos, ocupava-se em desconceituar José manuel para D. Maria. Então, começou a contar que uma moça muito rica, que vivia com a mãe orando no Oratório de Pedra, havia enchido uma meia preta com jóias e fugido com um homem, o mistério é que ninguém sabia quem era o tal; então, a comadre, aproveitando-se da curiosidade da outra, após fazê-la jurar não contar nada a ninguém, disse que o homem era José Manuel.
XXVI – Derrota - D. Maria ficou estupefada e a comadre satisfeita com o resultado. A fofoca foi interrompida pela chegada de José Manuel, que nem bem havia entrado e começou a falar que andava muito ocupado com uns arranjos
mas não podia falar pois era segredo. As duas trocaram olhares significativos.
Luisinha, desde a declaração de Leonardo, sofreu mudanças significativas tanto física quanto psicológica, passou a erguer os olhos, a falar, a mover-se.
De tanto as duas senhoras cutucarem, José Manuel concordou em falar-lhes do seu negócio (não se pode esquecer de que ele era mentiroso) desde que elas fossem discretas; disse-lhes que havia sido chamado para ir ao palácio, mas assim que a comadre saiu D. Maria quis saber sobre a moça que ele havia roubado, mas o homem jurou e tresjurou que não tinha nada a ver com aquilo, mas D. Maria estava inflexível, resultado: José Manuel saiu na carreira.
XXVII – O mestre-de-reza - Depois do acontecido na casa da D. Maria, José Manuel reconheceu que tinha ali um inimigo e que o motivo seria a sua pretensão à mão de Luisinha, só faltava saber quem.
Rapidamente José Manuel pôs mãos à obra, ou seja, da mesma forma que Leonardo tinha seus protetores, ele teria um; para tanto, recorreu ao mestre-de-reza de D. Maria, que tinha fama de casamenteiro.
O mestre-de-reza entrou em ação logo à noite, pois enquanto conversava com D. Maria, disse-lhe que sabia quem havia roubado a moça.
XXVIII - Transtorno - Enquanto José Manuel agitava a casa de D. Maria, a vida de Leonardo agitava-se tristemente, pois o seu padrinho adoecera. Como D. Maria não conseguiu curá-lo, chamaram o velho da botica que prometeu curá-lo com umas pílulas. A comadre não gostou da idéia das pílulas, chegou até a franzir a testa, pois disse que nunca tinha visto quem as tomasse escapar vivo.
A comadre tinha razão até certo ponto, pois três dias depois o compadre morreu. Na casa do falecido, Leonardo, todos os amigos, vizinhos e conhecidos estavam em prantos.
Quando todos se foram, enquanto Leonardo e Luisinha conversavam, D. Maria e a comadre foram procurar o testamento do compadre e encontraram.
Leonardo era o herdeiro universal do padrinho; quando Leonardo-Pataca ficou sabendo, apresentou-se para tomar conta do filho, mas este não gostou pois lembrou-se do pontapé, mas mesmo assim teve que acompanhá-lo e encontrar-se com a irmã e Chiquinha.
Leonardo-Pataca não só cuidou do testamento como também ficou com tudo; não se pode esquecer-se de que além dos mil cruzados, tinha ainda aquele dinheiro do capitão do navio que ele “pegou”.
Nos primeiros dias tudo foram flores, a família estava novamente unida: Leonardo-Pataca, Leonardo, a irmã e a comadre.
Agora, somente Leonardo e a comadre continuavam as visitas à D. Maria.
A paz familiar durou pouco, pois Leonardo não simpatizava com Chiquinha e esta começou a embirrar com Leonardo, resultado: na casa era a maior balbúrdia.
XXIX - Pior transtorno - Leonardo, após ficar grande tempo na casa de D. Maria sem ver a amada, entrou em casa de mal com a vida e ao se sentar jogou a almofada de Chiquinha no chão; esta por sua vez chamou-o de namorado sem ventura e ele não se fez de rogado, espumando de cólera avançou em Chiquinha que disse-lhe Ter raça de saloio.
Como Leonardo-pataca estava em casa foi acudir e armado do espadim embainhado, atirou-se sobre o filho, chegou D. Maria e apesar de tomar partido do jovem, a única coisa que pôde fazer foi sair à sua procura, pois o pai o havia expulsado de casa.
XXX - Remédio aos males - Após o carreirão que levara, o pobre rapaz, vagando pela cidade e pensando em Luisinha e no rival, chegou ao Cajueiro.
Gargalhadas vindas de uma moita tiraram-no do devaneio, procurou e encontrou um grupo de moças e moços sentados em uma esteira jogando baralho.
Com o estômago roncando, ia se afastando quando um deles o chamou, era o seu antigo camarada, Tomás, aquele menino sacristão da Sé. Este apresentou-lhe a irmão, Vidinha, uma mulatinha de 18 a 20 anos, de altura regular, ombros largos, peito alteado, cintura fina e pés pequeninos; tinha os olhos muito pretos e muito vivos, os lábios grossos e úmidos, os dentes alvíssimos, a fala era um pouco descansada, doce e afinada. Por ser cantora de modinhas, pôs-se a cantar:
Se os meus suspiros pudessem
Aos teus ouvidos chegar,
Verias que uma paixão
Tem poder de assassinar.
Não são de zelos
Os meus queixumes,
Nem de ciúme
Abrasador;
São das saudades
Que me atormentam
Na dura ausência
De meu amor.
Leonardo ouviu a música boquiaberto e nunca mais tirou os olhos da cantora.
XXXI - Novos amores - Já na casa do amigo, enquanto o jovem, pensava em Luisinha, José Manuel e Vidinha, ouvia mais uma música da bela cantora:
Duros ferros me prenderam
No momento de te ver;
Agora quero quebrá-los,
É tarde não pode ser.
Este último passo acabou de desorientar completamente o Leonardo: reconheceu que havia se inclinado um só instante por Luisinha, mas estava apaixonado por Vidinha, mas eram duas irmãs com três filhos e três filhas que moravam numa mesma casa, logo, havia três casais de primos completos, mas dois gostavam de Vidinha, resumindo: Leonardo tinha mais dois rivais, mas sem Ter para onde ir, passou a noite ali.
XXXII – José Manuel triunfa - Enquanto a comadre procurava Leonardo por toda a parte, o jovem ouvia modinhas. Cansada, a comadre acaba indo à casa de D. Maria. Lá, tudo que a comadre falava do afilhado, defendendo-o, D. Maria não concordava, acusava-o; algo estranho acontecia: José Manuel, aliado ao mestre-de-rezas, venceram.
O velho conseguiu inocentar José Manuel e este tinha aprovação de D. Maria para ser pretendente de Luisinha.
XXXIII – O agregado - Algumas semanas depois, Leonardo já era agregado na casa de Tomás da Sé, mas certo dia, ao ser surpreendido abraçado com Vidinha, acabou se atracando com um dos enamorados pela moça.
Como parecia ser sua sina viver como o Judeu Errante, já ia se pondo a andar, quando a comadre o encontrou.
XXXIV – Malsinação - As três velhas, após longa conversa, tornaram-se amigas e a tormenta dos três briguentos cessou e a comadre, cada vez que tentava fazer o afilhado voltar para casa, as duas velhas se metiam, até que, para a alegria de Vidinha, Leonardo resolveu ficar.
A comadre ia regularmente visitar Leonardo e as duas novas amigas. Tudo ia as mil maravilhas, porém os dois primos despeitados tramavam e tramavam algo.
Os dois colocaram o plano em ação no dia em que o grupo saiu para uma patuscada. Quando estenderam a esteira, surgiu o major Vidigal, que assim que chegou quis saber quem era Leonardo e assim que este se identificou, Vidigal o prendeu por vadiagem.
Segundo Vidinha, foi uma malsinação.
XXXV – Triunfo completo de José Manuel - Com o sumiço de Leonardo da casa de D. Maria, José Manuel teve espaço para agir a vontade, tanto que acabou ajudando D. Maria em uma demanda do testamento de Luisinha. Como já tinha adquirido a confiança da velha, aproveitou-se e pediu a moça em casamento.
Luisinha estava naquela idade do abatimento, entre 13 e 25 anos e como não via Leonardo há tempos, aceitou a proposta de forma indiferente.
Num Sábado à tarde, Luisinha e José Manuel casaram-se.
Ora, os leitores hão de estar lembrados da mania que tinha D. Maria por uma demandazinha; atirava-se a ela com vontade, e tal era o empenho que empregava na mais insignificante questão judiciária, que em tais casos parecia ter em jogo sua vida. Daqui se poderá concluir a satisfação que teria ela no dia em que se achava vencedora, e como se não julgaria obrigada a quem lhe proporcionasse a vitória.
José Manuel aproveitou-se disto; e no dia em que veio ler a D. Maria a sentença final que resolvia a pendência em seu favor, pediu-lhe a mão da sobrinha, a qual lhe foi prometida sem grandes escrúpulos.
XXXVI – Escápula - Enquanto o casal está no gozo tranqüilo da lua-de-mel e D. Maria faz cálculos aritméticos aconselhando a sobrinha, Leonardo, a caminho da cadeia, ao ouvir uma confusão, teve uma vertigem, seus ouvidos zuniram, deu um encontrão no granadeiro e fugiu. Pouco depois estava na casa de Vidinha.
Vidigal foi às nuvens, urrava; nunca nenhum garoto havia conseguido fugir. Jurara vingança.
XXXVII – O Vidigal desapontado - Todos riram quando o major Vidigal, após vasculhar uma casa, saiu de mãos vazias. Quando o major ia entrando na casa da guarda, a comadre atirou-se aos seus pés e em prantos pedia a libertação do afilhado.
Todos que a ouviam, riam e quando o major disse que ele havia fugido, ela saiu toda sorridente.
XXXVIII – Caldo entornado - Assim que a comadre chegou à casa de Vidinha, todos puseram-se a rir, mas após a alegria, a comadre começou a passar-lhe um sermão, afirmando que Leonardo tinha que arranjar alguma ocupação, caso contrário cairia nas unhas do Vidigal.
Leonardo prometeu se emendar.
Poucos dias depois, a comadre arranjou-lhe um emprego de servidor na ucharia real.
O major, mordendo os beiços, não o perdia de vista.
Com o novo emprego, a despensa de Vidinha ficou abarrotada, ou seja ele tirava de l’’a e abastecia a casa.
No pátio da ucharia morava um toma-largura na companhia de uma moça bonita. Acontece que o homem era extremamente bruto e Leonardo, na mais pureza dos sentimentos foi à casa da moça levar-lhe uma tigela de caldo. De repente a porta se abre, eras o toma-largura; a moça entornou o caldo, Leonardo pôs-se a correr e o toma-largura, atrás.
Daí a pouco ouviu-se barulho e gritos e Leonardo atravessar o pátio às carreiras.
No dia seguinte o Leonardo foi despedido da ucharia.
XXXIX – Ciúmes - No dia seguinte o Vidigal já sabia de tudo e pôs-se em alerta.
Em casa, Vidinha, enfurecida pelo ciúmes, pediu a mantilha da mãe para ir à ucharia falar com toma-largura . Leonardo que ouvia tudo, sem resultado pediu à moça que não fosse. No caminho, Leonardo deparou-se com o major e foi obrigado a acompanhá-lo.
XL – Fogo de palha - Enquanto Leonardo era obrigado a seguir o “seu destino”, Vidinha já estava na ucharia. Lá, disse à moça do caldo que ela não tinha sentimentos fez um desaforozinho ao toma-largura e saiu, sem saber que era seguida por ele.
XLI – Represálias - Em casa, enquanto Vidinha contava a sua aventura a todos, sentiram falta de Leonardo e reconheceram que este deveria estar com o Vidigal.
No dia seguinte, Tomás, que até então não havia tomado parte de nada na agitada casa, saiu para tomar as providências em favor do amigo.
Tomás foi à casa da guarda, mas não encontrou o amigo; procurou em outros lugares e nada. Sem opção, ele e os demais foram procurar a comadre que também pôs-se a procurar pelo afilhado e nada do moço.
Como Leonardo não dava notícias, acharam que ele estivesse escondido, resultado: Vidinha e os familiares passaram a odiá-lo.
O desaparecimento de Leonardo, aliado a visita que Vidinha fizera à ucharia, contribuíram para que ela visse, todos os dias, toma-largura duas vezes por dia.
Pouco tempo depois os familiares da moça já gostavam dele e ele passou a freqüentar a casa.
Certo dia todos saíram para uma patuscada, mas toma-largura bebeu demais armou-se a confusão, o que gerou no aparecimento de Vidigal e dos granadeiros.
Quando um deles se aproximou para prender toma-largura, todos se surpreenderam; Leonardo havia se tornado um dos granadeiros de Vidigal.
XLII – O granadeiro - Como toma-largura estivesse bêbado, caiu estirado na calçada e o seu tamanho colossal, mas o fato de ser gente da casa real, fez com que os granadeiros deixassem-no ali.
Convém agora, um leve flash-back para saber como Leonardo se tornou um granadeiro. Foi simples, na noite em que fora preso, como o regimento do Vidigal estivesse precisando de soldado, reconheceu que Leonardo seria de grande ajuda, pois conhecia todas as bocas do Rio de Janeiro.
O problema é que sorrateiramente Leonardo aliava-se ao povo e ficava contra o major.
XLIII – Novas diabruras - Um dia o major anunciou que tinha uma grande e importante diligência a fazer. Era prender um banqueiro de jogo-de-bicho e cantor satírico e chamado Teotônio.
Onde havia festa ele era convidado.
Por coincidência, Teotônio estava justamente na casa de Leonardo-Pataca, na festa de batizado de sua filha.
Leonardo fora incumbido de entrar na casa e dar sinal para que prendessem o homem, mas como o jovem era astuto, fez Teotônio livrar-se da prisão, saindo disfarçado de corcunda. Mais uma vez enrolara o Vidigal.
XLIV – Descoberta - Quando a patrulha do Vidigal estava batendo em retirada, um amigo de Teotônio, todo esfuziante, correu a abraçar Leonardo para agradecê-lo por ter enganado o major. O jovem granadeiro ficou estático e foi preso.
Enquanto caminha para o quartel, como será que estão Luisinha e sua gente?
Tudo eram rosas, mas pouco depois da lua-de-mel, José Manuel pôs as manguinhas de fora, de posse da moça e da herança, mudaram-se da casa de D. Maria.
Agora que os dois estavam sozinhos, ele se tornou um marido-dragão, não permitindo que a esposa sequer saísse à rua. A moça chorava pela liberdade.
Certo dia na missa, a comadre e D. Maria se encontraram e voltara a se falar. Uma falava das desgraças de Leonardo e a outra das de Luisinha.
Ambas, agora, teciam planos para a libertação de Leonardo.
XLV – Empenhos - Primeiro a madrinha foi falar com o major, mas sem resultado. Como o major era um pecador antigo, como última tentativa, a comadre e D. maria foram falar com o grande amor de Vidigal, a Maria-Regalada.
Lá chegando puseram a mulher a par de tudo e as três, na cadeirinha, puseram-se rumo à casa do major.
XLVI – As três em comissão - Lá chegando, o major recebeu-as de rodaque de chita e tamancos, mas quando reconheceu as três, correu o mais que pôde para pôr a farda. Na pressa retornou à sala de farda, calças de enfiar, tamancos e um lenço de alcobaça nos ombros.
As três mulheres, chorando em um único coro, pediam a soltura de Leonardo, mas o major estava irredutível, até que Maria-Regalada chamou-o a um canto da sala e cochichou-lhe algo. Pronto, tudo mudou, Leonardo seria solto.
XLVII – A morte é juiz - Nem bem chegou à casa, D. Maria, toda atrapalhada, teve que sair. José Manuel havia morrido.
Luisinha pôs-se a chorar, mas como choraria por qualquer vivente, porque tinha coração terno. Isso bastou para que uma vizinha dissesse a outra que não eram lágrimas de viúva.
A afirmação era correta, pois José Manuel nunca fora marido de Luisinha, senão por conveniência.
À saída do enterro, os escravos fizeram a maior algazarra.
Ao entardecer, para espanto de D. Maria, Leonardo dbentro na sala, estava livre das garras do major e ainda por cima, promovido a sargento.
Os olhos de Leonardo encontraram-se com os de Luisinha. Depois de conversarem com Leonardo estava de serviço, teve que se retirar.
XLVIII – Conclusão feliz - Luisinha e Leonardo haviam reatado o antigo namoro; namoro de viúva anda depressa.
Como sargento não podia se casar, foram a casa de Maria-Regala pedir ajuda e lá encontraram o major em rodaque e tamancos. Este era o segredo que Maria-Regalada havia lhe cochichado.
Após conversarem o major concordou em dar baixa ao Leonardo; de sargento de tropas, seria sargento de milícias.
Pouco tempo depois, Leonardo e Luisinha, casaram-se. Daí por diante, aconteceu o reverso da medalha: Leonardo Pataca devolveu os bens do filho, D. Maria e Leonardo Pataca morreram e mais uma enfiada de acontecimentos tristes que convém poupar e ponto final.
Como ler poesia
Sabemos que a poesia é estado de alma, é o despertar da subjetividade, revelando sentimentos e emoções vividas pelo poeta.
Mas será que estamos preparados para entender a essência da mensagem como um todo? O texto realmente fez diferença, ou não passou de meras palavras?
Há muito o que descobrir por trás de uma simples estrofe e de um simples verso, pois na maioria das vezes o objetivo do poeta é fazer um denúncia , é criticar algo relacionado ao contexto social, e, somente iremos decifrar tudo isso através do nosso conhecimento de mundo.Esta é a chamada "Análise do Discurso", através dela conseguimos desvendar a intencionalidade do autor e fazer com que a leitura de um modo geral, nos faça sentido.
Vejamos agora um poema de Ulisses Tavares, o qual retrata muito bem esta questão:
Além da Imaginação
Tem gente passando fome.
E não é a fome que você imagina
entre uma refeição e outra.
Tem gente sentindo frio.
E não é o frio que você imagina
entre o chuveiro e a toalha.
Tem gente muito doente.
E não é a doença que você imagina
entre a receita e a aspirina.
Tem gente sem esperança.
E não é o desalento que você imagina
entre o pesadelo e o despertar.
Tem gente pelos cantos.
E não são os cantos que você imagina
entre o passeio e a casa.
Tem gente sem dinheiro.
E não é a falta que você imagina
entre o presente e a mesada.
Tem gente pedindo ajuda.
E não é aquela que você imagina
entre a escola e a novela.
Tem gente que existe e parece
imaginação
(Ulisses Tavares. São Paulo, Brasiliense, 1984.)
Através do mesmo, podemos identificar uma verdadeira crítica às mazelas da sociedade, fazendo referência principalmente à desigualdade que tanto assola o nosso país atualmente. E se formos analisar o título- “imaginação” iremos identificá-lo com tudo o que foi dito anteriormente, haja visto que o real significado da palavra vai além do que ele literalmente representa.
Por Vânia Duarte
Graduada em Letras
Equipe Brasil Escola
Mas será que estamos preparados para entender a essência da mensagem como um todo? O texto realmente fez diferença, ou não passou de meras palavras?
Há muito o que descobrir por trás de uma simples estrofe e de um simples verso, pois na maioria das vezes o objetivo do poeta é fazer um denúncia , é criticar algo relacionado ao contexto social, e, somente iremos decifrar tudo isso através do nosso conhecimento de mundo.Esta é a chamada "Análise do Discurso", através dela conseguimos desvendar a intencionalidade do autor e fazer com que a leitura de um modo geral, nos faça sentido.
Vejamos agora um poema de Ulisses Tavares, o qual retrata muito bem esta questão:
Além da Imaginação
Tem gente passando fome.
E não é a fome que você imagina
entre uma refeição e outra.
Tem gente sentindo frio.
E não é o frio que você imagina
entre o chuveiro e a toalha.
Tem gente muito doente.
E não é a doença que você imagina
entre a receita e a aspirina.
Tem gente sem esperança.
E não é o desalento que você imagina
entre o pesadelo e o despertar.
Tem gente pelos cantos.
E não são os cantos que você imagina
entre o passeio e a casa.
Tem gente sem dinheiro.
E não é a falta que você imagina
entre o presente e a mesada.
Tem gente pedindo ajuda.
E não é aquela que você imagina
entre a escola e a novela.
Tem gente que existe e parece
imaginação
(Ulisses Tavares. São Paulo, Brasiliense, 1984.)
Através do mesmo, podemos identificar uma verdadeira crítica às mazelas da sociedade, fazendo referência principalmente à desigualdade que tanto assola o nosso país atualmente. E se formos analisar o título- “imaginação” iremos identificá-lo com tudo o que foi dito anteriormente, haja visto que o real significado da palavra vai além do que ele literalmente representa.
Por Vânia Duarte
Graduada em Letras
Equipe Brasil Escola
Castro Alves... "Meu" Castro Alves...
Antônio de Castro Alves nasceu em 14 de março de 1847 na fazenda Cabaceiras, interior da Bahia. Concluídos os estudos secundários no Ginásio Baiano, onde começou a escrever seus primeiros versos, ingressou-se, em 1.862, na Faculdade de Direito do Recife, onde despertou tamanha notoriedade por seu dom poético.
.jpg)
Sua obra compreende: Espumas Flutuantes, A revolução de Minas (teatro), A cachoeira de Paulo Afonso, Os Escravos.
Esse mártir da Literatura pertenceu à chamada Terceira Geração do Romantismo. Sua obra poética subdivide-se em duas vertentes: a lírico-amorosa, na qual ele ainda conserva resquícios do subjetivismo cultuado pelos poetas da segunda geração.
Contudo, a figura da mulher já não é mais idealizada, intocável, e sim vista por um plano mais realista, resultante de um amor materializado.
Pode-se dizer que Castro Alves traz em seu labor poético, uma característica individualista que o difere de seus antecessores: Seria algo que talvez prenunciasse e se convertesse em um pré-parnasianismo, que iria emergir posteriormente na voz de Olavo Bilac.
Tal característica era representada por uma intensa sensualidade que remontava os moldes do Classicismo e por um espírito norteador baseado em traços da Mitologia Greco-Latina.
Dando ênfase à outra vertente, chamada de “poesia social”, trazia um “falso subjetivismo”, ou seja, sua característica marcante pautava-se pela denúncia e insatisfação frente ao cenário político da época, mais precisamente da época da escravidão brasileira.
Através dessa temática, ele conseguiu despertar um espírito crítico diante das consciências que notadamente anseavam pelo desejo da libertação da escravatura.
É importante ressaltar que Castro Alves foi muito influenciado por Vítor Hugo, o escritor francês autor de “Os Miseráveis”, cuja temática de sua obra representou a metáfora do pássaro Condor, uma ave que habita as montanhas do Andes, de hábitos solitários, capaz de enxergar longas distâncias, simbolizando o caminho da justiça e da liberdade.
Vejamos sua magnífica obra, a lírico-amorosa e a social:
Marieta
Como o gênio da noite, que desata
o véu de rendas sobre a espada nua,
ela solta os cabelos... bate a lua
nas alvas dobras de um lençol de prata.
O seio virginal que a mão recata,
embalde o prende a mão... cresce, flutua...
Sonha a moça ao relento... Além na rua
preludia um violão na serenata.
Furtivos passos morrem no lajedo...
Resvala a escada do balcão discreta...
matam lábios os beijos em segredo...
Afoga-me os suspiros, Marieta!
Oh surpresa! Oh! Palor! Oh! Pranto! Oh! Medo!
Ai! Noites de Romeu e Julieta!...
Por meio da mesma, percebemos a figura feminina denotando um amor mais real, despertando a sensualidade e a concretização do contato físico. Diferente das donzelas virginais e inacessíveis representadas pela segunda geração, a mulher se entrega aos encantos de seu admirador, levando-nos a crer que o encontro amoroso foi realmente consumado.
Vozes d'África
Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...
Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé! ...
Por abutre — me deste o sol candente,
E a terra de Suez — foi a corrente
Que me ligaste ao pé...
O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.
Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.
Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.
Por tenda tem os cimos do Himalaia...
Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais ...
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
— Pagodes colossais...
[...]
Pode-se dizer que esse é quase um poema épico pela sua extensão, no qual notamos um lirismo pungente e o traço principal que o caracteriza - o verdadeiro repúdio à situação social na época da escravidão, como é explicitado por meio dos seguintes versos:
Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Ao ressaltar o termo “hárens do Sultão”, Castro Alves denuncia a condição submissa das escravas perante ao seu Senhor, visto que as mesmas eram “usadas”sem a mínima consideração por parte de quem as considerava como mero objeto de prazer.
Por Vânia Duarte
Graduada em Letras
Equipe Brasil Escola
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Sua obra compreende: Espumas Flutuantes, A revolução de Minas (teatro), A cachoeira de Paulo Afonso, Os Escravos.
Esse mártir da Literatura pertenceu à chamada Terceira Geração do Romantismo. Sua obra poética subdivide-se em duas vertentes: a lírico-amorosa, na qual ele ainda conserva resquícios do subjetivismo cultuado pelos poetas da segunda geração.
Contudo, a figura da mulher já não é mais idealizada, intocável, e sim vista por um plano mais realista, resultante de um amor materializado.
Pode-se dizer que Castro Alves traz em seu labor poético, uma característica individualista que o difere de seus antecessores: Seria algo que talvez prenunciasse e se convertesse em um pré-parnasianismo, que iria emergir posteriormente na voz de Olavo Bilac.
Tal característica era representada por uma intensa sensualidade que remontava os moldes do Classicismo e por um espírito norteador baseado em traços da Mitologia Greco-Latina.
Dando ênfase à outra vertente, chamada de “poesia social”, trazia um “falso subjetivismo”, ou seja, sua característica marcante pautava-se pela denúncia e insatisfação frente ao cenário político da época, mais precisamente da época da escravidão brasileira.
Através dessa temática, ele conseguiu despertar um espírito crítico diante das consciências que notadamente anseavam pelo desejo da libertação da escravatura.
É importante ressaltar que Castro Alves foi muito influenciado por Vítor Hugo, o escritor francês autor de “Os Miseráveis”, cuja temática de sua obra representou a metáfora do pássaro Condor, uma ave que habita as montanhas do Andes, de hábitos solitários, capaz de enxergar longas distâncias, simbolizando o caminho da justiça e da liberdade.
Vejamos sua magnífica obra, a lírico-amorosa e a social:
Marieta
Como o gênio da noite, que desata
o véu de rendas sobre a espada nua,
ela solta os cabelos... bate a lua
nas alvas dobras de um lençol de prata.
O seio virginal que a mão recata,
embalde o prende a mão... cresce, flutua...
Sonha a moça ao relento... Além na rua
preludia um violão na serenata.
Furtivos passos morrem no lajedo...
Resvala a escada do balcão discreta...
matam lábios os beijos em segredo...
Afoga-me os suspiros, Marieta!
Oh surpresa! Oh! Palor! Oh! Pranto! Oh! Medo!
Ai! Noites de Romeu e Julieta!...
Por meio da mesma, percebemos a figura feminina denotando um amor mais real, despertando a sensualidade e a concretização do contato físico. Diferente das donzelas virginais e inacessíveis representadas pela segunda geração, a mulher se entrega aos encantos de seu admirador, levando-nos a crer que o encontro amoroso foi realmente consumado.
Vozes d'África
Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...
Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé! ...
Por abutre — me deste o sol candente,
E a terra de Suez — foi a corrente
Que me ligaste ao pé...
O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.
Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.
Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.
Por tenda tem os cimos do Himalaia...
Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais ...
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
— Pagodes colossais...
[...]
Pode-se dizer que esse é quase um poema épico pela sua extensão, no qual notamos um lirismo pungente e o traço principal que o caracteriza - o verdadeiro repúdio à situação social na época da escravidão, como é explicitado por meio dos seguintes versos:
Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Ao ressaltar o termo “hárens do Sultão”, Castro Alves denuncia a condição submissa das escravas perante ao seu Senhor, visto que as mesmas eram “usadas”sem a mínima consideração por parte de quem as considerava como mero objeto de prazer.
Por Vânia Duarte
Graduada em Letras
Equipe Brasil Escola
O Ultrarromantismo no Brasil - Prévia
Nas décadas de 50 e 60 do século XIX, durante o Romantismo, jovens poetas universitários de São Paulo e Rio de Janeiro reuniram-se em um grupo, dando origem à poesia romântica brasileira conhecida como Ultra-Romantismo.
Essa geração foi influenciada pelo escritor inglês Lord Byron – sendo assim também conhecida como “geração byroniana”, cujo estilo de vida era imitado.
O Ultra-Romantismo se caracteriza pelo pessimismo, sentimento de inadequação à realidade, ócio, desgosto de viver, essa geração sentia-se “perdida”, não tinha nenhum projeto no qual se apegar.
O apego a bebida, ao vício, atração pela noite e pela morte caracterizava o “mal-do-século”, características presentes nas obras do principal representante: Álvares de Azevedo, acrescentando temas macabros e satânicos. A tendência contou ainda com Cassimiro de Abreu, Fagundes Varela e Junqueira Freire.
Os Ultra-Românticos não se apegavam aos temas e posturas do Romantismo (nacionalismo e indianismo) pelo contrário, os desprezavam, mas o subjetivismo, o egocentrismo e o sentimentalismo foram bastante acentuados.
Por Marina Cabral
Especialista em Língua Portuguesa e Literatura
Equipe Brasil Escola
Essa geração foi influenciada pelo escritor inglês Lord Byron – sendo assim também conhecida como “geração byroniana”, cujo estilo de vida era imitado.
O Ultra-Romantismo se caracteriza pelo pessimismo, sentimento de inadequação à realidade, ócio, desgosto de viver, essa geração sentia-se “perdida”, não tinha nenhum projeto no qual se apegar.
O apego a bebida, ao vício, atração pela noite e pela morte caracterizava o “mal-do-século”, características presentes nas obras do principal representante: Álvares de Azevedo, acrescentando temas macabros e satânicos. A tendência contou ainda com Cassimiro de Abreu, Fagundes Varela e Junqueira Freire.
Os Ultra-Românticos não se apegavam aos temas e posturas do Romantismo (nacionalismo e indianismo) pelo contrário, os desprezavam, mas o subjetivismo, o egocentrismo e o sentimentalismo foram bastante acentuados.
Por Marina Cabral
Especialista em Língua Portuguesa e Literatura
Equipe Brasil Escola
quarta-feira, 7 de julho de 2010
terça-feira, 6 de julho de 2010
Se liga aí!! Essa postagem é de 2010!!! Barroco/Arcadismo - 2010 Barroco/Arcadismo
Seminário- 1 Ano
BARROCO / ARCADISMO LUSO-BRASILEIRO
Parte 1 – B A R R O C O
. Marcos: Da unificação da Península Ibérica, enquanto Portugal esteve sob domínio espanhol, até a Fundação da Arcádia Lusitana, na primeira metade do sec XVIII.
. Contexto Histórico : (ver p. 169 em diante.)
-Grandes transformações e turbulências obretudo religiosas.
-A decadência das grandes navegações
-A contrarreforma católica
-A criação e a intensificação do mito sebastianista.
-Barroco em Portugal p.188
-Barroco no Brasil p.206
. Origem do termo “Barroco”
.Características:
-Arte do exagero e do contraste
-Dualismo
-Fugacidade ( consciência da efemeridade da vida)
-Pessimismo
-Feísmo (exagero e tragicidade)
-Tensão religiosa
-Rompimento com os padrões clássicos
.A dualidade: Teocentrismo x Antropocentrismo = tensão barroca
. Duas Faces Barrocas: Cultismo (Gongorismo)
Conceptismo (Quevedismo)
.Autores:
1)Pe Antônio Vieira :
a)Sermão da sexagésima; (p.191)
** A t i v i d a d e: Fazer resenha:
Texto do blog profaureachristina.blogspot.com: “Vieira e seu sermão da Sexagésima, Bethoven e sua nona sinfonia”.
b)Sermão sobre os peixes;
c) Sermão do bom ladrão;
2)Gregório de Matos Guerra (p. 207 em diante)
Pesquisar sobre os seguintes sonetos líricos e satíricos:
a) À Cidade da Bahia;
b) Descreve o que era naquele tempo a cidade da Bahia;
c) Contemplando nas cousas do mundo desde o seu retiro, lhe retira com o seu apage, como quem a nado escapou da tormenta;
d) Queixa-se o poeta da plebe ignorante e perseguidora das virtudes;
e) Aos principais da Bahia chamados os Caramurus;
f) A certa personagem desvanecida;
g) Pondera agora com mais atenção a formosura de D.Ângela;
h) Rompe o poeta com a primeira impaciência querendo declarar-se e
temendo perder por ousado;
i) Pergunta-se neste problema qual é o maior, se o bem perdido na posse, ou o que se perde antes de se lograr? Defende o bem já possuído;
j) Namorado, o poeta fala com um arroio;
k) A um penhasco vertendo água;
l) Aos afetos e lágrimas derramadas na ausência da dama a quem queria bem;
(Todos os poemas estão no blog)
* Ler atentamente as pgs: 236 a 239 e resumir os textos.
BARROCO / ARCADISMO LUSO-BRASILEIRO
Parte 1 – B A R R O C O
. Marcos: Da unificação da Península Ibérica, enquanto Portugal esteve sob domínio espanhol, até a Fundação da Arcádia Lusitana, na primeira metade do sec XVIII.
. Contexto Histórico : (ver p. 169 em diante.)
-Grandes transformações e turbulências obretudo religiosas.
-A decadência das grandes navegações
-A contrarreforma católica
-A criação e a intensificação do mito sebastianista.
-Barroco em Portugal p.188
-Barroco no Brasil p.206
. Origem do termo “Barroco”
.Características:
-Arte do exagero e do contraste
-Dualismo
-Fugacidade ( consciência da efemeridade da vida)
-Pessimismo
-Feísmo (exagero e tragicidade)
-Tensão religiosa
-Rompimento com os padrões clássicos
.A dualidade: Teocentrismo x Antropocentrismo = tensão barroca
. Duas Faces Barrocas: Cultismo (Gongorismo)
Conceptismo (Quevedismo)
.Autores:
1)Pe Antônio Vieira :
a)Sermão da sexagésima; (p.191)
** A t i v i d a d e: Fazer resenha:
Texto do blog profaureachristina.blogspot.com: “Vieira e seu sermão da Sexagésima, Bethoven e sua nona sinfonia”.
b)Sermão sobre os peixes;
c) Sermão do bom ladrão;
2)Gregório de Matos Guerra (p. 207 em diante)
Pesquisar sobre os seguintes sonetos líricos e satíricos:
a) À Cidade da Bahia;
b) Descreve o que era naquele tempo a cidade da Bahia;
c) Contemplando nas cousas do mundo desde o seu retiro, lhe retira com o seu apage, como quem a nado escapou da tormenta;
d) Queixa-se o poeta da plebe ignorante e perseguidora das virtudes;
e) Aos principais da Bahia chamados os Caramurus;
f) A certa personagem desvanecida;
g) Pondera agora com mais atenção a formosura de D.Ângela;
h) Rompe o poeta com a primeira impaciência querendo declarar-se e
temendo perder por ousado;
i) Pergunta-se neste problema qual é o maior, se o bem perdido na posse, ou o que se perde antes de se lograr? Defende o bem já possuído;
j) Namorado, o poeta fala com um arroio;
k) A um penhasco vertendo água;
l) Aos afetos e lágrimas derramadas na ausência da dama a quem queria bem;
(Todos os poemas estão no blog)
* Ler atentamente as pgs: 236 a 239 e resumir os textos.
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